Sebo

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Guia de Sebos

O nome “sebo” vem exatamente do que o leitor pode estar pensando. Substância gordurosa, e está diretamente ligada à resina utilizada na fabricação velas. Única forma de conseguir luminosidade para leitura, à noite, antes da invenção da Luz Elétrica.

Não havia eletricidade

Imagine-se num período em que não havia luz elétrica mas você, ávido leitor precisava da sua leitura até altas horas. Então você acendia uma vela, mas elas não eram feita da atual parafina e sim de gordura de animais. Um exemplo é a feita de baleia. A atenção à leitura permitia sujar os livros, esses blocos de papel encadernados ficavam ensebados. Essa é uma possibilidade já que os sebos são livrarias que vendem livros de segunda mão.

Outras possibilidades

Outras possibilidades também plausíveis:

Um livro tão lido e passado de mão e mão.

Os anos o deixa com várias marcas de mãos do que o manuseou, acabou ensebado e foi parar numa loja cheia de livros.

Mas também tem os muitos manuseados por diversas mãos, o Sebo, então ficou sendo o nome desse tipo de livraria .

Outras línguas

Em espanhol se utiliza o nome Librero de Viejo e em inglês, Used bookstore. O princípio é o mesmo e o nome é comum apenas no Brasil. Em Portugal se utiliza Alfarrábio, isto é livros de antiquários. Bem, o Brasil possuí uma imensa população, infelizmente, ainda muito pouco leitora. E os sebos desenvolvem um importante papel na democratização do acesso ao livro. Eles não são apenas lugares de curiosos, colecionadores e pesquisadores. Porque uma parte leitora da população não tem acesso a uma renda que permita comprar um livro novo. Mas estes podem recorrer a ele como meio de leitura.

O sebo na expansão da cultura

Ele preenche uma lacuna de nossos espaços culturais porque oferecer livros a um preço mais módico e também guarda a história da circulação do livro e de seus frequentadores. O sebo, no Brasil, é muito mais que uma loja de produtos, é antes de tudo um centro cultural disponível para comprar e para vender livros. Uma visita, mesma que rápida, lhe colocará em contato com um mundo fascinante, impossível de encontrar em uma livraria ou mesmo numa biblioteca, sua diversidade bibliográfica nos conduz aos labirintos de inúmeras histórias ocultas.

É um achado afetivo também, porque o objeto do livro continua a servir mesmo depois de muito ser usado. Só que o mais importante é, há mensagens transmitidas por eles que não envelhecem, outras estão sempre em renovação esperando de um descobridor. Há muita histórias por trás de tudo, aos poucos contaremos,não se pode dar tudo que se tem de uma vez, é preciso destilar aos poucos esse álcool em que se pesa os livros.

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A História do Repórter Esso (Livro)

Testemunha ocular da história

Síntese noticiosa que revolucionou o jornalismo de rádio, O Repórter Esso completa 70 anos desde sua primeira transmissão no Brasil. Para comemorar a data, sua trajetória é revista em livro

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Reporter Esso

Por César Alves

Considerado um marco no processo evolutivo do radiojornalismo mundial, O Repórter Esso estreou no Brasil há mais de 70 anos, em 28 de agosto de 1941, com transmissão da Rádio Nacional do Rio de Janeiro.

Para registrar a data, a ediPUCRS (editora da PUC, do Rio Grande do Sul) – em coedição com a Editora Age – lançou o livro O Repórter Esso – A Síntese Radiofônica Mundial que Fez História, de Luciano Klockner, que relata os 27 anos em que o programa foi ao ar no País.

Acompanhado de um CD de áudio com as principais edições do noticioso, a publicação faz uma análise do papel da mídia e sua influência política e social durante alguns dos momentos mais emblemáticos do Brasil no século 20.

Surgido nos Estados Unidos em 1935

Esso foi criado pela Standard Oil, também conhecida como Esso ou Exxon, como misto de serviço de utilidade pública e instrumento de marketing, visando divulgar seus produtos e aproximar a empresa de seus consumidores.

No Brasil, chegou a reboque como parte da “Política de Boa Vizinhança”, campanha encabeçada pelo governo americano para seduzir corações e mentes, pouco depois de sua entrada na Segunda Guerra Mundial.

O programa praticamente moldou o jornalismo radiofônico produzido no País a partir de então.

Antes, a divulgação de notícias pelo rádio limitava-se à leitura de manchetes de jornais.

A novidade ganhou reconhecimento imediato e, em pouco tempo, o programa passou a ser reproduzido quase em rede nacional.

Entrada do Brasil na Segunda Guerra

O público ansiava por notícias que eram trazidas direto do front, poupando as pessoas da espera até o dia seguinte para ler os fatos nos jornais.

Apesar do bordão “testemunha ocular da história”, poucas vezes o “repórter” esteve in loco – uma das raras exceções foi a transmissão ao vivo direto de Brasília no dia do lançamento do programa.

Todo o conteúdo era fornecido por agências de notícias.

Seja como for, a credibilidade do programa era imbatível. Entre as inovações, está o fato de ter sido o primeiro a editar um manual de redação.

Em 1957, a campanha massiva contra a estatização do petróleo brasileiro acabou por gerar uma investigação, que revelou um esquema de tráfico de influência envolvendo a Esso e a Shell, colocando em descrédito o noticiário.

O evento marcou a fase de declínio do programa. Com a chegada da TV, o programa teve de se adaptar.

Assim, foi parar na mídia televisiva. Mas o golpe de 1964 representou o canto do cisne para o programa.

Em um dos primeiros atos de censura, o Esso foi impedido pela primeira vez de ir ao ar no dia 1o de abril daquele ano.

Tentou resistir, mas o tiro de misericórdia foi dado com a instauração do AI-5. No último dia de 1968, o Esso fez sua derradeira transmissão – na TV, seus boletins ainda foram veiculados até 1970.

Fim do noticiário

O noticiário chegou ao fim após uma campanha da Esso e demais petrolíferas multinacionais contra o programa do governo O Petróleo é Nosso, na década anterior.

Uma CPI descobriu somas de dinheiro pagas pelos departamentos de marketing das entidades em troca do apoio de jornais.

A condenação da companhia atingiu o programa, abalando sua credibilidade.

Após o golpe, a marcação cerrada dos órgãos do governo no controle da informação tornou ainda mais difícil a continuidade dos boletins veiculados pelo programa.

Publicada originalmente na revista Brasileiros

O Melhor da Senhor – Livro

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Memórias da Senhor

 

Dois livros assinados por Ruy Castro e Maria Amélia Mello reúnem poesia, contos, crônicas, ensaios fotográficos e traduções publicados na revista Senhor, que circulou no País entre 1959 e 1964. Trazem ainda bastidores da publicação que marcou uma época e entrou para a história do jornalismo

César Alves

 

No final da década de 1950, o País respirava os ares de modernidade insuflados pelo governo Juscelino Kubitschek. A construção de Brasília e o surgimento de movimentos culturais (Bossa Nova e Cinema Novo, entre outros) davam a impressão de que outro Brasil começava a nascer. Nessa nova atmosfera, surgia também um novo brasileiro: mais maduro e sofisticado, ele se interessava por política, livros, cinema, música e viagens. Simão e Sergio Waissman, sócios na editora Delta-Larousse, identificavam-se com esse público e assumiram a missão de criar um veículo que refletisse os gostos e hábitos desse cidadão, que tinha, além de bom poder aquisitivo, capacidade para valorizar textos inteligentes e excelência gráfica.

 

O projeto surgiu em 1958, quando o jornalista Nahum Sirotsky, que era diretor da revista Manchete, foi convidado para criar uma publicação diferente, capaz de saciar esse homem contemporâneo. Sirotsky atraiu para a redação colaboradores de peso, como Clarice Lispector, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Nelson Rodrigues, Glauber Rocha, Darcy Ribeiro, Zuenir Ventura, Carlos Drummond de Andrade, João Guimarães Rosa, Vinicius de Moraes, Luiz Carlos Maciel, Ferreira Gullar, Otto Lara Resende, entre tantos outros. Também lançou talentos, entre eles, Paulo Francis, Jaguar, Glauco Rodrigues, Luiz Lobo, Ivan Lessa e Carlos Scliar. Assim nasceu a revista Senhor, que acabou por mudar (no bom sentido) a maneira de se fazer jornalismo.

Quase meio século desde a sua derradeira edição, Senhor está de volta em dois livros: Uma Senhora Revista e O Melhor da Senhor, concebidos por Maria Amélia Mello (jornalista e escritora, autora Às Oito, em Ponto, coletânea de contos ganhadora do Prêmio Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras, e organizados por Ruy Castro (também jornalista e escritor, autor da biografia O Anjo Pornográfico, sobre Nelson Rodrigues, e Chega de Saudade, sobre a Bossa Nova, só para citar alguns). Nos dois livros da Senhor, os autores selecionaram os melhores momentos dos cinco anos de existência da revista, que ficou para a história do jornalismo, valorizando a criatividade, o bom texto, a ousadia gráfica e contando com um time de bambas.

 

Uma Senhora Revista dedica-se a contar a história da Senhor por meio daqueles que a fizeram. Os artigos são escritos pelos principais protagonistas da aventura editorial, em textos assinados por Nahum Sirotsky, Paulo Francis, Luiz Lobo e Ivan Lessa. Assuntos mais sérios, como economia e política, ficavam a cargo da dupla Sirotsky e Paulo Francis, que também era responsável pela crítica cultural e literária e por selecionar os contos e novelas de autores nacionais e internacionais publicados mensalmente. O design gráfico, que acabou por angariar prêmios internacionais, vinha de Carlos Scliar. Os cartuns de Jaguar e textos de Luiz Lobo imprimiam a dose de humor que se tornaria referência em publicações futuras.

 

Apesar de ter sido uma revista destinada ao público masculino, o primeiro editorial foi dirigido às leitoras. Iniciava-se com um respeitoso “Minhas Senhoras” e dizia que, apesar de Senhor ser uma revista masculina, ela era direcionada às mulheres, uma vez que eram elas, na verdade, quem compravam ou condenavam uma revista à morte. Em seu auge, devido ao número de leitores que se ofereciam para publicar na revista, partiu de Jaguar e Lessa o anúncio: “O leitor também pode colaborar com a Senhor, comece escrevendo aqui”. O “aqui” guiava o leitor para um cupom de aquisição de uma assinatura.

 

A seleção de reportagens, artigos, contos, reproduções de capas, anúncios e ensaios fotográficos realizada por Ruy Castro para O Melhor da Senhor faz desse volume a cereja do bolo. Estão no livro as beldades, devidamente vestidas, mas nem por isso desprovidas do poder da sedução, que faziam a cabeça de marmanjos, como Odete Lara, que aparece linda e deliciosamente esparramada na beira da piscina.

Há ainda Otto Maria Carpeaux, narrando seus encontros com Franz Kafka. Em seu único diálogo com o autor de O Processo, Carpeaux não teria compreendido a pronúncia do nome e a conversa teria transcorrido da seguinte forma: “KAUKA”. “Como é o nome?” “KAUKA!” “Muito prazer.” O leitor vai se deleitar ainda com o brilhante artigo de Armando Nogueira em um clássico da crônica esportiva, intitulado Didi: o Homem que Passa. Vai também aproveitar Glauber Rocha discorrendo sobre as ousadias cinematográficas de Luis Buñuel.

 

A literatura era um dos principais focos da Senhor – por isso, a grande quantidade de escritores brasileiros que colaboraram na revista. Mas também foram traduzidos, exclusivamente para a Senhor, textos de Kafka, Truman Capote, Dorothy Parker e outros – alguns desses autores foram apresentados pela primeira vez ao leitor brasileiro pela revista.

 

Senhor teve vida curta, durou apenas cinco anos, entre 1959 e 1964 – a revista não sobreviveu para ver o período sombrio representado pelo golpe militar, ocorrido dois meses depois de seu último suspiro. Muitos de seus colaboradores estiveram por traz de títulos como O Pasquim. É possível detectar sua influência no melhor que a imprensa escrita brasileira produziu depois. Os lançamentos em torno da Senhor, pela Imprensa Oficial, é, sem dúvida, certeza de leitura prazerosa e deleite visual, graças ao belo acabamento gráfico e ao legado histórico da publicação, agora reunido em dois lindos volumes.

 

Iconografia do Cangaço – Livro

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Guerreiros do Sol

Livro retrata o épico rural dos bandoleiros do sertão nordestino através de fotos e filmes da época.

Por César Alves

Quando Corisco foi subjugado pela força policial do estado, montada exclusivamente para acabar com poder paralelo exercido pelos cangaceiros no sertão nordestino, um dos movimentos mais emblemáticos de nossa história chegou ao fim. O golpe fatal havia sido dado dois anos antes, quando o bando de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, tombou frente à volante de João Bezerra, no dia 28 de julho de 1938. O épico protagonizado por cangaceiros, coronéis e volantes, no entanto, sobreviveu no imaginário popular, exercendo fascínio cada vez maior nas décadas seguintes. Os feitos de seus personagens foram cantados por repentistas, narrados nos versos do cordel, inspirou dois de nossos maiores clássicos cinematográficos e foi imortalizado em uma extensa bibliografia. Agora a saga dos guerreiros do sol é contada através de registros fotográficos da época em Iconografia do Cangaço, lançamento da Terceiro Nome.

Organizadas por Ricardo Albuquerque, as imagens que compõem a obra fazem parte do acervo mantido pelo Instituto Chico Albuquerque, um dos mais completos sobre o cangaço nordestino. Os instantâneos foram tirados por fotógrafos profissionais, viajantes, e, principalmente, por Benjamin Abrahão que passou duas temporadas com Lampião, Maria Bonita e seu grupo.

Mítico desde o berço, o advento do cangaço surge no nordeste do Brasil por volta do século dezoito. Eterna evidência de nossa histórica chaga social, naqueles tempos, a região era verdadeira terra de ninguém. Onde os fracos não têm vez, quem pode manda e quem quer viver obedece. Tal regra era seguida a risca pelos coronéis que dominavam com braço de ferro sob uma única lei: a das armas. Castigado pela seca, maltratado pela fome e massacrado pela violência, o sertanejo via com fascínio aqueles que se armavam e se embrenhavam pelo sertão, assumindo as rédeas de seu próprio destino, abraçados a vida nômade cujo código de sobrevivência baseava-se no banditismo. Inevitavelmente a coragem dos bandoleiros despertava sentimentos antagônicos de medo e admiração.

Foi justamente através da narrativa popular que o cangaço difundiu sua história. Os feitos de Antonio Silvino, ou Rifle de Ouro, também famoso como “o terror da Great Western”, empresa que implantava o sistema ferroviário na Paraíba e um dos precursores do movimento, se espalhavam de boca em boca entre o povo local, chegando a todos os cantos do país através dos viajantes que ouviam e recontavam. No início do século vinte, a mitologia dos anti-heróis do sertão já possuía uma galeria de notáveis e, por mais macho que fosse o cabra, qualquer um tremia só de ouvir os nomes de José Gomes, o Cabeleira; Lucas Evangelista, o Lucas da Feira; Adolfo Meia-Noite e Sinhô Pereira, entre outros. Apesar disso, foi na figura de Lampião que o movimento manteve viva sua memória.

Fosse escrita por um roteirista, a epopéia rural de Lampião não seria tão cinematográfica. Começa com uma desavença entre duas famílias: Ferreira e Nogueira. A fagulha foi acesa quando João Caboclo, que vivia na fazenda de José Saturnino da família Nogueira, roubou alguns bodes que pertenciam aos Ferreira. Saturnino saiu em defesa de seu empregado, recusando-se a entregá-lo para o castigo. Estava declarada a guerra.

Na peleja dos Nogueira contra os Ferreira, a família de Virgulino levou a pior, acabando expulsa de suas terras. Mas a coisa não tinha acabado e realmente pegou fogo quando uma volante, sob o comando do sargento José Lucena, filho de Saturnino, assassinou o patriarca dos Ferreira de forma covarde. Reza a lenda que, frente ao túmulo do pai, Virgulino teria dito “a partir de hoje minha casa é meu chapéu” prometendo não descansar até que o sangue fosse pago com sangue – ironia do destino, anos depois, o mesmo José Lucena seria o superior direto de João Bezerra, chefe da volante que selou o destino do cangaceiro na histórica batalha do Angico.

Como recrutas no bando de Sinhô Pereira, os irmãos Ferreira caíram na clandestinidade. Anos depois, a pedido de Padre Cícero, Pereira abandonaria o cangaço, passando o comando de seu bando ao seu homem de confiança: Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Nascia assim a lenda do Rei do Cangaço.

Os caminhos de Lampião e Benjamin Abraão, então secretário particular de padre Cícero, teriam se cruzado pela primeira fez em Juazeiro, quando o beato convocou os cangaceiros para combater a “ameaça” comunista, representada pela Coluna Prestes. É também quando o bandoleiro ganha o título de capitão, que ostentaria com orgulho a partir daí. Frágil, a trégua entre foras da lei e o Estado não vingou e o acordo logo foi rompido. Mas deu tempo para que o libanês ganhasse a confiança do já famoso líder do bando.

A idéia de registrar o cotidiano dos cangaceiros teria sido de Adhemar Albuquerque, dono da Aba Filmes e avô do organizador de Iconografia do Cangaço, que emprestou e ensinou ao libanês como utilizar o equipamento. É fruto das duas aventuras dele – na primeira, devido à inexperiência de Abrahão, muitos dos filmes teriam sido queimados – grande parte das imagens que compõem a obra. Além das fotos que circularam o país, o libanês também filmou os cangaceiros nos acampamentos montados em meio à caatinga, na história que, décadas mais tarde, iria inspirar o roteiro de O Baile Perfumado.

O “rei do Cangaço” enxergava na fotografia e no cinema instrumentos para propagandear seu poder e espalhar sua fama. Relações públicas de si mesmo, o cabra concedeu entrevistas, posou para fotografias e, juntamente com seu bando, deixou-se filmar, numa afronta direta ao poder constituído. Muitos historiadores colocam tamanha exposição entre os motivos de sua queda.

As imagens de foras da lei gozando livremente da desobediência civil em pleno Estado Novo eram muita ousadia. Getulio Vargas, que não era de levar desaforo para casa, tomou como ponto de honra acabar com o cangaço. Autorizou a criação de uma espécie de força tarefa, formada por sertanejos com conhecimento da região, o mesmo biótipo e vestimenta dos cangaceiros, confundindo que os que protegiam.

Ao contrário dos antigos “pés de barro” –como os bandoleiros chamavam seus antigos perseguidores, inexperientes na guerrilha do sertão –, estes tinham o mesmo conhecimento que seus alvos sobre o campo de batalha, estavam em maior número e melhor armados, virando rapidamente o jogo. Acabar com os cangaceiros, no entanto, não bastava. Era preciso humilhá-los. Por isso as cabeças cortadas e expostas como troféus das fotos que ilustram o último capítulo do livro.

Lampião era marginal e não queria ser herói. Embora gostasse dos artigos de jornais que muitas vezes o comparavam a Robin Hood, confessava ter “um bicho por dentro” para explicar seus atos de violência. Se é possível explicar o fascínio que ainda hoje personagens como os cangaceiros nordestinos despertam, talvez seja que, em tempos de heróis forjados ao gosto do público para sustentar democracias frágeis, é sempre preferível ficar com os anti-heróis. Ricamente ilustrado, incluindo fotos poucas vezes vistas, Iconografia do Cangaço, que também vem acompanhado de um DVD com os filmes de Benjamin Abrahão com cinco minutos de imagens inéditas, chega como item precioso sobre um período fascinante de nossa história recente.

Serviço: Iconografia do Cangaço – Organizador: Ricardo Albuquerque – Editora Terceiro Nome – 216 páginas – Inclui DVD.

A História da Caricatura no Brasil – Livro

Capa do Livro História da Caricatura Brasileira (1)

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O doce veneno do humor gráfico brasileiro

Série de livros traça o mais completo histórico da caricatura no Brasil.

por César Alves

Autores de clássicos incontestáveis da literatura brasileira, Aluízio Azevedo e Raul Pompéia tinham em comum mais do que a maestria na composição de tramas e diálogos dos livros que os fizeram imortais. Além da palavra, ambos tinham domínio sobre o traço humorístico das caricaturas. Este lado menos conhecido dos criadores de O Cortiço e O Ateneu é uma das curiosidades de História da Caricatura Brasileira, de Luciano Magno (pseudônimo de Lucio Muruci), que acaba de chegar às livrarias pela editora Gala Edições de Arte. Fruto de 25 anos de pesquisa, o livro é apenas o primeiro volume de uma série que pretende contar a história do desenho de humor da caricatura, charge e cartum no Brasil desde os precursores e responsáveis pela consolidação do gênero até nossos chargistas atuais, que, diariamente, conseguem arrancar-nos um sorriso – ainda que amarelo – em meio a tantas notícias de fazer chorar nas páginas de nossos jornais e demais periódicos.

Baseando-se em papiros expostos no Museu de Turim e no Museu Britânico, historiadores costumam reconhecer as origens da caricatura na arte egípcia e também nas imagens de paródias chistosas pintadas nos vasos gregos e nos graffitti de Roma e Pompéia. Se os primórdios da arte remontam a antiguidade e prenúncios do que viria a ser podem ser encontrados em toda a Europa, da Idade Média ao Renascimento, é na Itália do século XVI que ela ganha um nome. Caricatura vem de caricare que significa carregar, exagerar, acentuar ou pequenos desenhos carregados. O termo teria sido cunhado pelos irmãos Carracci, que trabalhavam na Academia de Bolonha. É nos desenhos preservados de Annibale Carracci (1560-1609) – o filho mais notório da família de artistas – que se encontra o nascimento da arte do desenho de humor como um novo segmento no universo das belas artes a ser respeitado.

O humor gráfico de sátira cotidiana e política como conhecemos hoje, no entanto, está diretamente ligado à imprensa europeia do início do século XIX, quando se estabelece de forma definitiva. O Brasil sempre possuiu papel de destaque na área e não é novidade o respeito internacional de que gozam nossos artistas contemporâneos. Nossa tradição na arte da caricatura consolida-se praticamente junto com o velho mundo, entre as décadas de 1820 e 1830. É justamente a este momento da caricatura brasileira e aos pioneiros que fizeram parte dele que este primeiro volume se dedica.

No Brasil, a arte da caricatura possui na charge A Companhia e o Cujo (1937), de autoria do gaúcho Manuel de Araújo Porto-Alegre, certidão de nascimento oficial. A informação é validada por pesquisadores e especialistas em todos os livros até agora publicados sobre o assunto. Aqui, no entanto, um dado até agora inédito é adicionado à questão. O autor identifica no traço de artistas antecessores a Porto-Alegre, todos anônimos e que publicavam em pequenos periódicos, um período intermediário – embrionário, se o leitor preferir – e antecipa em quinze anos os primeiros registros do humor gráfico por aqui.

Gênero anárquico e inconformista por natureza, não é de se estranhar que seus primeiros registros em nosso território remetam a efervescência do debate em torno da independência do Brasil e das movimentações e insurgências que refletiam os desejos patrióticos de um povo por uma nação livre do jugo português. É justamente no ano da proclamação da independência, no desenho que estampa da edição inaugural do jornal pernambucano O Maribondo, que aparece a primeira charge feita no Brasil de que se tem notícia. De autoria anônima, a ilustração mostra um homem corcunda que tenta desesperadamente fugir de um enxame de marimbondos. Embora o desenho não represente uma personalidade pública conhecida, em seu teor cômico para comunicar uma questão política ou fato cotidiano já traz incorporada a verve de nossas charges modernas. Jornal de posição assumidamente pró-independência, o alvo aqui eram os portugueses e, principalmente os brasileiros contrários ao movimento. A corcunda fazia referência àqueles que curvavam frente à coroa e os insetos representavam os brasileiros revoltosos. A imagem do corcunda era comum na época, às vezes representado com cabeça de burro, e também aparece em outros jornais do mesmo período, como O Carcundão.

Magno, no entanto, observa que o novo dado só indica que a caricatura já existia em nosso território bem antes do que se pensava, mantendo Manuel de Araújo Porto-Alegre como patrono oficial da caricatura brasileira. “Estes registros foram feitos por artistas desconhecidos que, provavelmente, não tinham aquilo como algo sério. Tanto que não assinavam. Foi Porto-Alegre quem apresentou a caricatura no Brasil como novo oficio das artes. É nosso primeiro caricaturista declarado e também o primeiro a lançar um periódico exclusivo sobre o tema, A lanterna Mágica”, afirma.

Trazer à tona precursores do humor gráfico nacional, aliás, parece ter sido uma das preocupações do autor. Nas placas satíricas da vida cotidiana pintadas por João Pedro, o Mulato, identifica um antecessor da caricatura. A obra também resgata nomes importantes não mencionados em outros estudos como Leopoldo Heck, Carneiro Vilella, Luis Távora e Maurício Jobim. Dentre eles, merece atenção o trabalho de A. P. Caldas. Autor das caricaturas publicadas no jornal O Torniquete, que teve tiragem de novo números no ano de 1878, Caldas desenvolveu um estilo pautado pela originalidade, como “A Página enigmática”, misturando natureza e retrato. Artista à frente de seu tempo, em suas caricaturas, seu delírio criativo beira o Surrealismo.

O período abordado no livro deixa clara a colaboração dos artistas europeus radicados no país. É o caso do caricaturista português Bardalo Pinheiro e, principalmente, do ítalo-brasileiro Angelo Agostini. Este último teve papel fundamental na luta pela proclamação da república, abolição da escravatura e todas as grandes campanhas políticas da época. Fundador da Revista Ilustrada – “a bíblia da abolição do povo que não sabe ler”, disse na época Joaquim Nabuco –, é também autor de As Aventuras de Nhô Quim ou Impressões de uma Viagem à Corte, série mundialmente pioneira em histórias em quadrinhos. Publicada em capítulos em 1869, foi a primeira novela gráfica brasileira, projeto a que dá prosseguimento em As Aventuras de Zé Caipora, obra fortemente marcada pela brasilidade do autor. “De fato, a caricatura brasileira sofre muita influência europeia, principalmente francesa. Mas há de destacar o nativismo latente. De forma geral, o conteúdo e enredos das charges e caricaturas produzidas aqui, sempre foram nacionais”.

 

A série completa deverá ter sete volumes, o próximo, batizado Guerras, Diplomacia e questões nacionais no Século XIX, deve ser lançado nos próximos meses. Será voltado para a Campanha Abolicionista, a Questão Religiosa, a República, a Guerra do Paraguai, o carnaval e o jogo do bicho. Arte que também é entretenimento, informação e reflexão, a caricatura está tão incorporada ao nosso cotidiano que nem nos damos conta de sua importância. Expressão artística que nunca perde a relevância. Que venham os novos volumes!

Serviço: História da Caricatura no Brasil – Os precursores e a Consolidação da Caricatura no Brasil – autor: Luciano Magno (Lucio Muruci) – Gala Edições de Arte – 528 páginas.

Box: História da Revista no Brasil do Século XIX

A memória gráfica brasileira do século XIX é alvo de outro lançamento que casa muito bem com História da Caricatura no Brasil. História da Revista no Brasil, de Carlos Costa, traça um detahado estudo sobre a formação da imprensa brasileira, fazendo também um histórico de como se deu a formação de um publico leitor em um pais com altas taxas de analfabetismo e reduzido mercado interno.

Serviço: História da Revista no Brasil do Século XIX – autor: Carlos Costa – Alameda Editorial – 455 páginas.

Com a palavra, Luiz Gama – Livro

Luiz Gama Capa

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Orfeu negro

Nascido livre e levado à escravidão aos dez anos de idade, o lendário Luiz Gama encarna como poucos os ideais libertários do Brasil de fins do século XIX. Pouco citado em nossos livros, o “Vate Negro” retoma seu lugar na história em lançamentos que resgatam sua trajetória ímpar e obra que funde literatura, política e jornalismo.

Por César Alves

 

Os nomes dos que tem na luta pela liberdade a marca de sua existência deveriam figurar com destaque na história de qualquer nação soberana. Sendo assim é de estranhar que Luiz Gama seja tão pouco citado em nossos livros. Dono de uma biografia intensa e trajetória dedicada à defesa da igualdade de direitos e ao livre pensamento, o poeta, jornalista e advogado – autodidata em todas as áreas – merece figurar entre os principais artífices na construção de um novo Brasil. Multifacetado e tendo no abolicionismo e na derrubada da monarquia suas principais bandeiras, sua atuação no combate às arbitrariedades dos que detinham o poder político e financeiro no século XIX foi marcante nos mais diversos palcos. Vai da literatura, com a publicação de seu único livro, Primeiras trovas burlescas de Getulino; passa pela luta por uma imprensa livre, através de artigos corajosos nas redações de jornais oficiais e também de periódicos independentes; chegando à ação direta nos tribunais, como o advogado de argumentos imbatíveis pelos direitos dos humildes e injustiçados. Antes tarde do que nunca, o resgate de sua importância histórica tem ganhado forma nos últimos anos através de lançamentos como a reedição de Primeiras Trovas Burlescas pela Martins Fontes, uma série de ensaios e novas biografias. Passados 180 anos de seu nascimento, a Imprensa Oficial presta justa homenagem neste Com a palavra, Luiz Gama – poemas, artigos, cartas e máximas.

Filho de Luiza Mahin, uma quitandeira africana livre de Costa Mina, com um fidalgo de nome nunca revelado – sabe-se que fazia parte de uma tradicional família baiana de origem portuguesa –, o Vate Negro, como ficaria conhecido no futuro, nasceu em Salvador no ano de 1830. Embora tenha vindo ao mundo como homem livre, Luiz Gonzaga Pinto da Gama conheceu a escravidão aos dez anos de idade quando foi vendido pelo próprio pai a um mercador de escravos. Da Bahia o garoto é levado ao Rio de Janeiro e depois Santos, de onde segue a pé até Campinas para ser vendido. Na época, escravos de origem baiana tinham fama de rebeldes e, por este motivo, Luiz Gama não foi comprado, ficando o mercador como seu senhor. É como cativo que chega à capital de São Paulo, principal cenário de sua trajetória sem precedentes.

Provando a máxima de que educação confere liberdade, é graças a um estudante de direito que aluga um dos quartos na casa de seu senhor que Luiz Gama é alfabetizado aos dezessete anos. Ato corajoso, tendo em vista que na época ensinar um negro tinha conotação de crime, o jovem torna-se amigo do garoto escravo e também lhe fornece as primeiras noções de direito. De forma impressionante, pouco tempo depois, Gama reúne documentos que provam seu nascimento como homem livre e consegue alforria defendendo-se por conta própria e antecipando seu futuro como grande advogado. Aqui é preciso tomar cuidado. Foi justamente sua atuação marcante no universo do direito e sua fama como “o advogado dos escravos”, que acabaram por soterrar a imagem do homem de múltiplos talentos que realmente foi.

Já livre, aos dezoito anos ingressa na guarda municipal, onde trava contato com uma das maiores autoridades da São Paulo de então: Conselheiro Furtado de quem se torna protegido e com quem anos mais tarde romperia suas relações publicamente, com direito a troca de rusgas na imprensa. Sua carreira militar termina seis anos depois, após cumprir pena de 39 dias por insubordinação. Mais tarde escreveria: “desde que me fiz soldado, comecei a ser homem; porque até os dez anos fui criança; dos dez aos dezoito anos fui soldado”.

Nomeado amanuense da Secretaria de Polícia de São Paulo, Gama começa a ter contato com os problemas dos mais humildes que por lá apareciam ávidos por justiça, quase um privilégio das elites. É onde também passa a aperfeiçoar seus conhecimentos na área jurídica. A época marca sua aproximação de personalidades republicanas e a formação de alianças com nomes emblemáticos que teriam importância para seu futuro e também do país, como o poeta e professor de direito José Bonifácio, o Moço. Membro da maçonaria, associado à Loja América, um dos núcleos do antimonarquismo paulistano, em pouco tempo Luiz Gama escreveu seu nome entre os principais intelectuais do período. Personagem símbolo da luta abolicionista, como rábula – profissional autorizado a exercer advocacia sem curso superior, desde que comprovado profundo conhecimento na área – passou a defender de forma gratuita casos de escravos e parte da população menos assistida pelo Estado, também fornecendo aconselhamentos e participando pessoalmente da libertação – sempre através de meios legais – de trabalhadores escravizados. Suas conquistas representam feito jamais igualado na luta contra escravidão em todo o mundo. Há registros de que teria sido o responsável direto pela libertação de mais de quinhentos escravos. Extra-oficialmente, há quem diga que o número se aproxime de mil.

Contrariando os que defendiam idéias pseudo científicas, muito em voga na época, de que o conhecimento e a capacidade intelectual para desenvolvê-lo e produzir coisas belas eram uma questão de raça, privilégio dos escolhidos e de pele alva, pouco mais de dez anos separam a alfabetização do menino escravo de sua ascensão como o brilhante intelectual que se tornou. Apenas doze anos se passaram até que Luiz Gama publicasse seu primeiro e único livro de poesia, ganhasse o respeito como autor de artigos invejáveis na imprensa e o orador, autor de discursos históricos na defesa de suas idéias. É ai que se encontra um dos principais méritos deste lançamento. Dividido em capítulos como Poemas, Artigos, Cartas e Máximas, o livro apresenta ao leitor as diversas faces de um pensador cuja obra singular une literatura, jornalismo e política.

Lírica de Carapinha

Publicado em 1859, Primeiras Trovas Burlescas de Getulino teve apenas duas edições na época, sendo praticamente empurrado para o esquecimento nas décadas seguintes. O que poucos perceberam é que o surgimento do poeta Luiz Gama representava um marco em nossa literatura. Sem mencionar o valor incontestável de seu lirismo, a obra impressiona por sua ousadia e importância histórica. Não bastando o fato de que pela primeira vez um autor negro tinha sua obra publicada, Gama vai além. Apropria-se das referências dos poetas brasileiros e europeus que o influenciaram, mas assume sua raça e posiciona-se como uma nova voz já desde o título do livro. Embora o autor assine com seu nome de batismo, as trovas são creditadas a Getulino, pseudônimo retirado de uma tribo guerreira nômade oriunda da África, os Getulos. O poeta se apresenta como o Orfeu de Carapinha, tomando de empréstimo a lírica do musicista encantador de deuses e mortais da Grécia mitológica clássica, porém substituindo sua lira por instrumentos de origem africana. Canta pela primeira vez a beleza da mulher negra, declamando que, à alva Vênus dos poetas clássicos prefere “A musa de Guiné, cor de azeviche”.

Embora cante as belezas do espírito como faziam seus contemporâneos, desde os primeiros poemas o Vate Negro mostra sagacidade e domínio da ironia em versos satíricos de forte conteúdo político e social. Esta, aliás, seria uma de suas marcas em poemas publicados mais tarde na imprensa paulistana. Sua pena não dá trégua aos poderosos, mas sobra também para os “mulatos falsários”, como ele definia mestiços que renegavam sua ascendência africana. Os versos de “Quem sou Eu?”, também conhecido como “Bodarrada” – chamavam Bodes os mestiços de pele mais escura – dizem: “Se negro sou, ou sou Bode./Pouco importa./O que isto pode?”. Também ataca o preconceito dominante de parte das elites intelectuais: “Ciências e letras/Não são para ti/pretinho da costa/não é gente aqui”. E, se os versos: “No meu cantinho./Encolhidinho./Mansinho e quedo./Banindo o medo (…)/O que estou vendo./Vou descrevendo” podem dar a falsa impressão de uma humildade cômoda, em outros salta feito leão contra a hipocrisia dos poderosos : “Se a justiça, por ter olhos vendados,/É vendida, por certos magistrados,/Que o pudor aferrando na gaveta,/Sustentam – que o Direito é pura peta;/E se os altos poderes sociais,/Toleram estas cenas imorais,/Se não mente o rifão, já mui sabido:/ “Ladrão que muito furta é protegido”/É que o sábio, no Brasil, só quer lambança,/Onde possa empantufar a larga pança!”. O lançamento traz uma coletânea que inclui tanto textos extraídos de Primeiras Trovas Burlescas, como outros publicados apenas em jornais da época.

O jornalismo de combate de Barrabrás

Naqueles tempos em que jornalismo e literatura se confundiam, não é de se estranhar que alguém com tanto a dizer como Luiz Gama estendesse seu campo de atuação às redações. Como jornalista, Luiz Gama também fez história, podendo ser considerado um dos precursores de nossa imprensa independente ou alternativa. Em 1864, uniu-se ao cartunista Angelo Agostini para fundar o semanário de humor, Diabo Coxo. Embora a publicação tenha durado pouco mais de um ano, o periódico foi o primeiro jornal ilustrado da cidade de São Paulo e marca a descoberta da imprensa como principal canal difusor de suas idéias. Tendo no jornalismo atividade oficial a partir daí, Luiz Gama participaria da criação e edição de outros títulos não menos notórios, como Cabrião, O Polichinelo e O Radical Paulista – o último, ao lado de Rui Barbosa –, entre outros.

Talvez um dos maiores exemplos da cordialidade hipócrita de nosso racismo, Gama foi acusado por seus detratores de negro com pretensões literárias frustradas e até “agente da Internacional”. Durante muito tempo, a indignação e virulência de seu texto foram rotuladas como um rancor enraizado contra a parcela de pele branca da sociedade. Seu discurso, no entanto, não é pautado pela distinção racial e seus principais alvos eram as instituições dominantes no Brasil da segunda metade do século XIX: a monarquia e a igreja.

Vítima de complicações causadas pelo diabetes, o autor, que gostava de pseudônimos como Barrabrás – em referência ao bairro do Brás, onde morava –, com o qual assinou alguns de seus artigos mais virulentos contra as elites, faleceu jovem, aos 52 anos de idade, no auge de sua popularidade como republicano e fervoroso abolicionista. O impacto de sua morte movimentaria a capital paulistana. Seu velório teria atingindo proporções inéditas até então, sendo acompanhado por mais de três mil pessoas. Conta-se que em meio à cerimônia fúnebre o féretro teria sido “tomado” das mãos de seus companheiros republicanos pelos ex-escravos e demais populares, que o tinham como protetor, e conduzido nos braços do povo até o Cemitério da Consolação onde está enterrado. O evento ainda seria assunto na mídia nos meses que se seguiram em artigos e homenagens assinadas por notáveis como Rangel Pestana e Raul Pompéia, entre outros. Além dos poemas e artigos do autor já citados, Com a palavra, Luiz Gama também traz tais homenagens e se completa com suas máximas, trechos de sua correspondência e ilustrações, apresentando um rico panorama do pensamento de um personagem sem igual em nossa história.

Serviço: Com a palavra, Luiz Gama. Organizadora: Ligia Fonseca Ferreira. Editora: Imprensa Oficial. 306 páginas.

 

Box: Sangue indomável

Pesquisando de forma aprofundada as origens de Luiz Gama é quase impossível não pensar em predestinação. Descrita como uma negra bonita, de corpo frágil e personalidade forte, sua mãe, Luiza Mahin, teria participado de diversos levantes e rebeliões pela emancipação negra no Brasil escravocrata do século XIX. Embora as informações a seu respeito sejam escassas e desencontradas, é certo que teve papel importante em pelo menos uma das insurreições mais significativas do período: a Revolta dos Malês.

Organizado por um grupo de cerca de 600 negros muçulmanos, o movimento pretendia acabar com a imposição dos ritos católicos a que eram submetidos, libertar os escravos muçulmanos e instituir em Salvador um governo teocrático baseado no Islam. Levada a cabo no dia 25 de janeiro de 1835, a revolta teve motivação religiosa, com inspiração nas jihads – guerras santas – e nasceu destinada ao fracasso. Entre os principais motivos, estava o fato de não contar com o apoio de boa parte da população negra, a maioria católica e de outras religiões, que temia ser alvo de perseguição uma vez instaurado o governo muçulmano. Além do mais, seu núcleo fora infiltrado por informantes que, à traição, impediram o elemento surpresa, essencial para o sucesso de qualquer ação revolucionária. Avisado com antecedência, o governo não teve dificuldades em conter a rebelião. Seus líderes foram presos e executados. Outros foram deportados.

Luiza Mahin teria deixado seu filho aos cuidados do pai e fugido para o Rio de Janeiro. Seu destino a partir daí é uma incógnita. Conta-se que teria participado de outras revoltas no Rio. Lá teria sido presa e deportada para Angola, mas, não havendo documentos que comprovem tal informação, é também possível que tenha sido executada. Embora também não existam provas a respeito, certos autores defendem que Mahin teria conseguido fugir e encontrado refúgio no Maranhão. Tal teoria a coloca, inclusive, como uma das peças fundamentais para o desenvolvimento e popularização do Tambor de Crioula, dança típica de origem africana praticada ainda hoje por afro-descendentes maranhenses. Depois de adulto, Luiz Gama lançou-se em diversas campanhas para investigar pistas de seu paradeiro. Todas infrutíferas.

Considerada uma heroína e exemplo de mulher guerreira em diversas comunidades baianas, Luiza Mahin pouco conviveu com o filho. Seu papel sob a biografia de Luiz Gama, no entanto, possui simbologia marcante e impossível de se ignorar. Herdeiro do espírito indomável da mãe, o Vate Negro parece ter trazido nas veias sua inclinação à liberdade e à insubmissão.

Sobre ela, o filho escreveu: “Sou filho natural de negra africana, livre, da nação nagô, de nome Luísa Mahin, pagã, que sempre recusou o batismo e a doutrina cristã. Minha mãe era baixa, magra, bonita, a cor de um preto retinto sem lustro, os dentes eram alvíssimos, como a neve. Altiva, generosa, sofrida e vingativa. Era quitandeira e laboriosa.

 

Ponto Chic – Um Bar na História de São Paulo

Ponto Chic

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Ponto de encontro da Boemia com a História.

Berço do bauru, o mais paulistano dos lanches, o tradicional Ponto Chic celebra noventa anos.

Por César Alves

Se a História também aprecia o Happy Hour, em São Paulo escolheu o Ponto Chic como parada obrigatória. Essa é a impressão que temos ao ler Ponto Chic – Um Bar na História de São Paulo, de Angelo Iacocca. Um dos mais antigos e tradicionais bares da cidade, em março o Ponto Chic celebrou nove décadas de existência. Mais que um estabelecimento comercial, foi incorporado como parte do cotidiano e, principalmente, da vida noturna da metrópole com a qual sua trajetória se confunde. Da inauguração aos dias de hoje, o Ponto Chic assistiu a todas as mudanças políticas, estruturais, culturais e comportamentais ocorridas na cidade desde as primeiras décadas do século vinte. Muitos dos provocadores e agentes dessas transformações tinham-no como local preferido para momentos de lazer. Sendo assim, não é exagero supor que, entre uma rodada de chope e outra, algumas discussões e conversas ali tiveram impacto não só sobre a vida dos paulistanos, como também de todos os brasileiros. É justamente em explorar tal característica que se encontra o principal mérito do livro que editora Senac-SP lança como parte das comemorações.

Inaugurado no número 27 do Largo do Paissandu por Odilio Cecchini, um italiano boêmio e fanático pelo Palestra Itália, o bar e lanchonete logo se tornou parte importante da vida noturna que se desenvolvia ao longo da Avenida São João. Ali se encontravam a maioria dos cinemas, teatros, confeitarias e casas noturnas. Foi fundado pouco depois da Semana de Arte Moderna de 1922 e, entre os primeiros dos muitos notáveis que fariam parte de sua clientela, estavam os modernistas Oswald de Andrade e Sérgio Milliet. Em seus anos dourados, que vão da década vinte ao final dos anos sessenta, passaram pelo Ponto Chic artistas do circo, celebridades do cinema e da televisão, jornalistas, advogados, políticos, escritores, empresários e socialites, numa lista estelar que traz nomes como Anselmo Duarte, Cacilda Becker, Walmor Chagas, Lygia Fagundes Telles, Jorge Mautner, Antônio Bivar, Inácio de Loyla Brandão, que escreve o prefácio, entre outros. Adoniran Barbosa costumava se encontrar com os parceiros do Demônios da Garoa nas mesas do Ponto Chic e ali teria começado ou finalizado algumas de suas famosas composições como “Viaduto Santa Ifigênia”. Era também ponto de encontro de profissionais do futebol que para lá rumavam depois dos jogos no Pacaembu. As histórias envolvendo partidas marcantes, negociatas entre dirigentes dos times, jogadores boêmios e discussões entre torcedores afoitos representam alguns dos melhores momentos do livro.

O ambiente, no entanto, sempre foi democrático e ali também se encontravam populares como taxistas, bancários, professores e também representantes do submundo como prostitutas, cafténs e malandros. Teriam sido estes frequentadores os responsáveis por chamar o local de “ponto de gente chique” que, depois de abreviado para Ponto Chic, foi adotado pelos proprietários como nome oficial.

Casa oficial do Bauru

Os estudantes de direito da São Francisco são parte importantes dessa história. Jovens ainda anônimos, eles estavam entre os primeiros a adotar o estabelecimento como ponto de encontro e, no futuro, muitos teriam seus nomes incorporados à história do país. Um deles, Casimiro Pinto Neto, ficaria famoso como locutor do noticioso O Repórter Esso de São Paulo, mas seu nome seria eternizado como o criador do mais paulistano dos lanches. Apelidado pelos colegas Bauru, em referencia a sua cidade natal, em um dia de muita fome, Casimiro pediu ao sanduicheiro que abrisse um pão francês, tirasse o miolo e botasse queijo derretido dentro. Notando a falta de albumina, proteína e vitamina, o estudante completou o lanche com umas fatias de rost beef e rodelas de tomate. Os colegas o imitaram pedindo: “Me vê um do Bauru!” Nascia assim, sua Excelência, o Bauru.

Através de depoimentos de funcionários, frequentadores célebres e anônimos e uma profunda pesquisa, Iacocca parte da trajetória do Ponto Chic para traçar um histórico não só de São Paulo como do Brasil no século vinte. Completa o livro algumas das receitas de lanches da casa como o tradicional Bauru e suas variantes, colaborando ainda mais para fazer deste lançamento leitura deliciosa.

Esquina Cultural

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Esquina Cultural

 

Qualquer um que caminhava pelas ruas do Centro de São Paulo em meados dos anos 80 e 90 e tivesse o hábito de garimpar livros, deve se lembrar da imensa oferta de sebos que ofereciam títulos bons e baratos, desde que o cliente estivesse disposto a se dedicar ao garimpo.

Com o passar dos anos, o Centro se tornou a verdadeira Meca para os amantes de livros e cultores do alfarrábio, o que acabou por tornar o mercado de sebos e livros usados mais um grande negócio do que uma paixão comercial por venda e troca livresca, chegando ao ponto de alguns sebos terem preços tão altos quanto os das livrarias oficiais.

Para os saudosos daqueles tempos, eis que surge uma luz no final do túnel. Localizado nas proximidades da Praça da Sé, mais precisamente na rua Quintino Bocaiúva, o Sebo Esquina Cultural surge com uma proposta Old School de comercializar e privilegiar o garimpo livresco. Suas prateleiras estão carregadas com um vasto acervo de livros, LPs, CDs e revistas à preços acessíveis – à partir de R$ 3,00 e promoções como três livros a 5 ou 10 reais.

E não se tratam de títulos pouco procurados, mas obras clássicas de autores como Oscar Wilde, Guimarães Rosa, Albert Camus, Jorge Amado, J. J. Veiga, entre outros, e títulos nas áreas de história, filosófica, arte, teatro, musica e demais seguimentos à partir de 5 reais; além de títulos da Coleção Primeiros Passos a 12 reais, coleção Os Pensadores por 15 reais e Tudo é História por 10 reais cada.

Vale à pena uma passada por lá…

 

Serviço:

Sebo Esquina Cultural

Rua Quintino Bocaiuva, 309 – Sé – São Paulo

Telefone: (11) 3101-18811 e-mail: [email protected]