Sebo

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Guia de Sebos

O nome “sebo” vem exatamente do que o leitor pode estar pensando. Substância gordurosa, e está diretamente ligada à resina utilizada na fabricação velas. Única forma de conseguir luminosidade para leitura, à noite, antes da invenção da Luz Elétrica.

Não havia eletricidade

Imagine-se num período em que não havia luz elétrica mas você, ávido leitor precisava da sua leitura até altas horas. Então você acendia uma vela, mas elas não eram feita da atual parafina e sim de gordura de animais. Um exemplo é a feita de baleia. A atenção à leitura permitia sujar os livros, esses blocos de papel encadernados ficavam ensebados. Essa é uma possibilidade já que os sebos são livrarias que vendem livros de segunda mão.

Outras possibilidades

Outras possibilidades também plausíveis:

Um livro tão lido e passado de mão e mão.

Os anos o deixa com várias marcas de mãos do que o manuseou, acabou ensebado e foi parar numa loja cheia de livros.

Mas também tem os muitos manuseados por diversas mãos, o Sebo, então ficou sendo o nome desse tipo de livraria .

Outras línguas

Em espanhol se utiliza o nome Librero de Viejo e em inglês, Used bookstore. O princípio é o mesmo e o nome é comum apenas no Brasil. Em Portugal se utiliza Alfarrábio, isto é livros de antiquários. Bem, o Brasil possuí uma imensa população, infelizmente, ainda muito pouco leitora. E os sebos desenvolvem um importante papel na democratização do acesso ao livro. Eles não são apenas lugares de curiosos, colecionadores e pesquisadores. Porque uma parte leitora da população não tem acesso a uma renda que permita comprar um livro novo. Mas estes podem recorrer a ele como meio de leitura.

O sebo na expansão da cultura

Ele preenche uma lacuna de nossos espaços culturais porque oferecer livros a um preço mais módico e também guarda a história da circulação do livro e de seus frequentadores. O sebo, no Brasil, é muito mais que uma loja de produtos, é antes de tudo um centro cultural disponível para comprar e para vender livros. Uma visita, mesma que rápida, lhe colocará em contato com um mundo fascinante, impossível de encontrar em uma livraria ou mesmo numa biblioteca, sua diversidade bibliográfica nos conduz aos labirintos de inúmeras histórias ocultas.

É um achado afetivo também, porque o objeto do livro continua a servir mesmo depois de muito ser usado. Só que o mais importante é, há mensagens transmitidas por eles que não envelhecem, outras estão sempre em renovação esperando de um descobridor. Há muita histórias por trás de tudo, aos poucos contaremos,não se pode dar tudo que se tem de uma vez, é preciso destilar aos poucos esse álcool em que se pesa os livros.

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O Jogo: A Bíblia da Sedução – Neil Strauss

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O Jogo: A Bíblia da Sedução

 

Para muitas pessoas a sedução é um mistério insondável. A simples aproximação com aquele que é seu objeto de desejo causa calafrios e a dificuldade de tomar uma iniciativa e ir adiante com o objetivo da conquista termina antes mesmo de começar. Ocorre com muita gente, embora nem todo mundo esteja disposto a assumir.

Não é o caso de Neil Strauss que, cansado de se sentir um fracassado na arte do amor, assumiu sua dificuldade em atrair o sexo oposto e decidiu fazer um mergulho aprofundado no universo dos mestres da conquista e da sedução.

O resultado é o livro O Jogo: A bíblia da Sedução, em que narra sua experiência de como, com a ajuda de seu mentor, Mystery, desenvolveu as técnicas que o transformariam em objeto do desejo feminino. Para proteger sua verdadeira identidade, adotou o pseudônimo Style, mudou sua aparência, pôs em prática aquilo que aprendeu e aumentou o número de mulheres que conquistou.

Aqui, Neil Strauss compartilha com o leitor o resultado da transformação a que ele mesmo se submeteu. São lições valiosas, histórias que funcionam como estímulo e exemplo que prometem transformar o leitor no Casanova moderno.

 

Serviço:

O Jogo: A Bíblia da Sedução

Ator: Neil Strauss

Editora: Best Seller

 

 

Marquês de Sade

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Evangelhos Libertinos (ou Tratado Filosófico de Perversões)

 

Marquês de Sade é celebrado com  dois livros dedicados à sua obra.

Por César Alves

 

Muito já foi dito sobre Donatien Alphonse François de Sade. Demonizado por homens santos, conservadores e demais defensores da retidão moral e dos costumes castos, como o Marquês de Sade, tornou-se o antipapa da religião que celebra o pecado, apóstolo primeiro, entre os pregadores dos evangelhos da luxúria e dos excessos. Ainda assim, para o bem e para o mal, em se tratando de autor e obra tão fascinantes, muito parece ainda ser pouco.

Este é apenas um dos argumentos que fazem mais do que bem vindos os lançamentos das obras A Felicidade Libertina, de Eliane Robert Moraes, e Os Libertinos de Sade, de Clara Castro, ambos publicados pela editora Iluminuras – que há anos vem disponibilizando para os leitores brasileiros, títulos da obra de Sade, incluindo Os 120 Dias de Sodoma ou a Escola da Libertinagem, A Filosofia na Alcova e Os Infortúnios da Virtude.

Embora no exterior contavam-se mais de seiscentos títulos sobre a obra do Marquês de Sade – todos publicados entre 1950 e 1973, ano em que foi a realizada a pesquisa –, no Brasil, poucos estudos sérios nesse sentido foram publicados, até os dias de hoje. É justamente para preencher tal vácuo que chegam os novos títulos.

Em A Felicidade Libertina, a pesquisadora Eliane Roberto Moraes faz uso das personagens e enredos criados pelo prolífico autor para introduzir e destrinchar a filosofia “lúbrica” de Sade para o leitor brasileiro. Já, em Os Libertinos de Sade, Clara Castro debruça-se sobre a obra e suas diversas encarnações no universo da arte – além do teatro e cinema, como a clássica adaptação de Os 120 Dias de Sodoma, de Pasolini, Sade teve forte impacto sobre movimentos artísticos como o Surrealismo, por exempl0 –, descrevendo sua verdadeira importância, que vai muito além da literatura erótica e pornográfica, como erroneamente muitas vezes é catalogado.

O Filósofo “Lúbrico” – Considerado “um libertino entre os libertinos”, capaz de enrubescer constrangidos até mesmo alguns dos pornógrafos declarados, sua vida e obra foram o suficiente para seu nome estar na raiz do substantivo “sadismo”, como definição de perversão sexual extremada, e que, para seus adeptos, fosse cunhado o adjetivo “sádico”.

Nascido em 1740, filho de aristocratas franceses – o que lhe renderia o título de conde e não marquês, como ficou famoso –, logo na infância Donatien deu sinais de seu comportamento errático e tendências violentas que lhe renderiam uma ficha corrida de fazer inveja a muitos criminosos lendários da historia.

Na tentativa de preparar o filho para uma vida grandiosa no seio da aristocracia e honrar o nome da família futuramente, sua mãe fez de tudo para aproximar o menino de Louis-Joseph de Bourbon, príncipe de Condé, contando que, assim, seu filho cultivaria, desde cedo, uma amizade com um membro da realeza.

Primeira de muitas manifestações de seu comportamento descontroladamente impulsivo que, mais tarde, associado às suas experiências sexuais extremas, que chocaram a burguesia de sua época, e declarações nada veladas contra a igreja, o matrimônio e a moral aristocrática, que o levaram a ser perseguido pelo clero e toda a sociedade, rendendo à ele diversas prisões por sodomia, heresia e indecência – ao contrário do que pode se pensar, suas passagens por prisões, incluindo a famigerada Bastilha, foram motivadas por suas práticas de perversão e lascívia, não por seus escritos, que surgiram justamente durantes suas estadias no cárcere. Sua vida foi uma verdadeira coleção de desafetos, que vão da Igreja a Napoleão Bonaparte, passando pelos rebeldes que perpetraram a Revolução Francesa.

Durante o bicentenário da morte de Sade, no ano passado, sua obra passou por uma reavaliação, com direito a homenagens e uma exposição no Museu D´Orsay de Paris. Nada mau para alguém que teria pedido em seus últimos momentos que fosse esquecido e que seu corpo fosse abandonado para apodrecer em um terreno baldio ou servir de alimento para animais carniceiros, entre as árvores de uma floresta.

 

Serviço:

Livros:

A Felicidade Libertina

Autor: Eliana Robert Moraes

280 páginas

 

Os Libertinos de Sade

Autor: Clara Castro

312 páginas

Editora: Iluminuras

Laranja Mecânica – Anthony Burgess

Capa da nova edição do livro Laranja Mecânica

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A Distopia Horrorshow de Burgess

 

Famosa pela adaptação cinematográfica de Stanley Kubrick, a obra de Anthony Burgess gerou polêmica, foi envolta em mitos e ainda hoje é objeto de culto.

por César Alves

 

Escrito em apenas três semanas no início dos anos sessenta, a inspiração teria vindo de artigos de jornais sobre brigas entre Rockers e Mods – dois dos primeiros grupos de jovens do advento estético e comportamental, detectado e muito estudado nas décadas seguintes, das tribos urbanas – e de uma manchete policial envolvendo estupro e assassinato.

Um dos muitos mitos sobre a concepção de Laranja Mecânica conta que a obra é fruto de uma falha médica. Apesar de já respeitado no meio intelectual e celebrado como autor de livros e ensaios sobre literatura, na época Burgess passava por situação financeira difícil. Para piorar, o escritor teria sido diagnosticado como portador de uma doença fatal. Os médicos calculavam que lhe restava pouco mais de um ano de vida. Desenganado e preocupado com o futuro de sua esposa e filhos, o escritor se isolou em uma casa do interior decidido a escrever quinze livros no prazo de seis meses. Com o retorno dos direitos autorais, esperava garantir a subsistência de sua família depois de sua morte. Como era de se esperar, não alcançou sua meta. Mas conta-se que, durante o período, teria escrito seis novos títulos. Um deles seria justamente A Laranja Mecânica.

Laranja Mecânica classifica-se como uma distopia futurista, cujo pano de fundo é uma Londres do Século XXI, decadente e assolada por gangs de jovens que se divertem praticando os mais cruéis atos de violência. Narrado em primeira pessoa por Alex, o romance foi escrito quase como uma confissão, na qual o personagem convida o leitor a ouvir sua historia e compartilhar de sua tragédia pessoal. O livro é dividido em três partes, cada uma com sete capítulos e, na nova edição, ilustrada por um dos artistas. Com desenhos de Dave McKean, na primeira parte o delinquente nos apresenta a seu mundo, vangloriando-se dos tempos em que era o líder de seu bando e, junto com os integrantes deste, praticava uma concepção muito particular de liberdade, baseada em drogas, sexo e os mais extremos atos de violência. O calvário de Alex é descrito no trecho intermediário da narrativa, aqui acompanhada pelo traço inconfundível de Angeli. Preso e condenado por suas atrocidades, ele se oferece como cobaia para um programa que visa recuperar delinquentes juvenis através de lavagem cerebral, o Tratamento Ludovic. O que a princípio parece uma estratégia para escapar da prisão, acaba por se tornar uma tortura. A impressionante descrição do procedimento – bem como a forma como Kubrick a representou nas telas – tornou-se inesquecível. A tragédia da readaptação à vida cotidiana e os efeitos do tratamento – que destrói seu livre arbítrio, tirando inclusive seu amor pela Nona Sinfonia de Beethoven, único traço sensível ou humano de sua personalidade – completam a terceira parte que conclui a narrativa com um final surpreendente. A concepção visual ficou a cargo do argentino Oscar Grillo.

Burgess gosta de sutilezas textuais e simbólicas, o que dá a seu texto carga extra ao conteúdo dramático. Nas entrelinhas, deixa pistas de suas verdadeiras intenções, quase como um prêmio para o leitor mais atento. Por exemplo; o nome do personagem, Alex, faz uso da palavra “lei” em latim (lex), sugerindo a-lex (algo como fora da lei, sem lei ou além da lei). Além de ser uma clara referência ao jovem e violento conquistador macedônio Alexandre, o Grande. O fato de os personagens beberem leite, símbolo de pureza, misturado com aditivos químicos, também não é mero capricho, além de a soma das três partes, com sete capítulos cada, resultar em 21. Assim, o livro termina justamente no capítulo de número correspondente à idade que marca o fim da tolerância legal aos erros cometidos pelos mais jovens e, na maioria das culturas, a entrada definitiva na maioridade, quando o individuo passa a responder perante a lei por seus atos.

Estudioso e amante da obra de James Joyce – escreveu um respeitado trabalho sobre o irlandês, publicado no Brasil como Homem Comum Enfim (Cia das Letras) –, foi do autor de Ulisses que Anthony Burgess tirou a inspiração para o vocabulário nadsat, que aparece na fala dos personagens como gírias. A “língua”, mais compreensível através do glossário publicado no livro, foi desenvolvida pelo autor misturando palavras do inglês, do russo e, principalmente, expressões idiomáticas dos cockney, ingleses da classe operária, que nasceram ou vivem em determinada área de Londres, cujo sotaque possui sonoridade e vocabulário quase incompreensíveis para não familiarizados, além de características e expressões idiomáticas muito próprias. O título, aliás, teria vindo de uma expressão cockney que certa vez o autor ouvira em um pub: as queer as a clockwork Orange – algo como: desorientado feito uma laranja mecânica.

Publicado em 1962, desde então a obra vem fascinando gerações de leitores. Quase dez anos depois, o texto chegou às telas do cinema, pelas mãos de Stanley Kubrick, resultando na película que figura hoje na maioria das listas de “Cem Maiores Filmes da História”. O sucesso do filme elevou o livro à categoria de Best seller, alçando o nome de Anthony Burgess ao de escritor pop. Além do cinema, A Laranja Mecânica ganhou adaptações teatrais e influenciou de astros de rock à moda, da arte dos museus à praticada nas ruas. Seus personagens se tornaram parte da iconografia do século vinte. A estética visual dada por Kubrick à gang de Alex, na interpretação inesquecível de Malcolm McDowell, chapéu coco, macacões brancos, cílios postiços e suspensórios, foi utilizada em inúmeros videoclipes, ganhou citação em episódios d´Os Simpsons e é comum em estampas de camisetas e tatuagens. Ainda hoje a obra é tema de artigos e teses, não só de literatura como também de estudos que vão da Filosofia ao Direito Penal.

 

“Não é um hino à violência, mas à liberdade”

Comprovando o gosto que a Historia nutre pela ironia, a década que abriu com o lançamento de Laranja Mecânica tem como um dos atos que a encerraram Charles Manson e seus seguidores trazendo a Ultraviolence dos personagens do livro para a realidade, no assustador ataque à mansão do casal Roman Polanski e Sharon Tate, em 1969. Mas, quando foi escrito, eventos como o Massacre de Columbine sequer poderiam ser imaginados. Muito menos, um garoto fuzilando pessoas em um cinema, acreditando ser um supervilão de quadrinhos. Nem por isso – ou talvez por isso –, a obra deixou de ser considerada uma apologia à violência juvenil. Principalmente depois do filme de Stanley Kubrick alavancar sua popularidade, muitas vezes Anthony Burgess foi obrigado a esclarecer que o livro é um libelo em favor do livre arbítrio e não uma celebração da delinquência juvenil. “Não é um hino à violência, mas à liberdade. É melhor ser malvado por escolha do que bom por lavagem cerebral”, teria dito.

 

Cenas de Uma Revolução – O Nascimento da Nova Hollywood

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Roteiros de transição

 

Livro reportagem de Mark Harris registra a ruptura geracional do cinema norte-americano nos anos sessenta.

Por César Alves

 

 

A trajetória de um casal de foras da lei texano, famoso durante a depressão, inspirou dois jovens funcionários da revista Esquire a iniciar o roteiro de um dos filmes que devolveriam ao cinema norte-americano sua criatividade perdida.

Fãs de Alfred Hitchcock e da Novelle Vague francesa, David Newman e Robert Benton sonhavam ver o texto dirigido por seu ídolo, François Truffaut. Não sob a régia do diretor francês, mas de Arthur Penn, o resultado foi muito além do que a dupla esperava.

O filme, estrelado por Warren Beatty e Faye Dunaway, entrou para a história como um dos que ajudaram a reinventar a indústria de Hollywood, pavimentando caminho para uma geração de realizadores que daria início a uma de suas fases mais criativas.

Ao lado de A primeira noite de um Homem, Adivinhe Quem Vem Para Jantar, No Calor da Noite e O Fantástico Dr. Doolitle, todos lançados em 1967 e indicados ao Oscar no ano seguinte, Bonnie And Clyde representa um dos cinco recortes cinematográficos da psique norte-americana nos anos sessenta. É o que defende o escritor e jornalista Mark Harris no excelente livro reportagem Cenas de Uma Revolução, publicado no Brasil pela L&PM Editores.

No alvorecer da década de 1960, a indústria cinematográfica hollywoodiana passava por uma de suas piores crises. Se os roteiristas sofriam diante da página em branco, o mesmo não poderia ser dito dos jornalistas. As redações estavam em fase brilhante, graças a um estilo em ascensão que adicionava elementos da literatura às técnicas de reportagem. O jornalismo literário ou Novo Jornalismo não era exatamente uma novidade. O estilo, no entanto, estava em glória e a Esquire era praticamente sua residência oficial. Tendo como colaboradores alguns dos mais notórios expoentes do gênero, era em suas páginas que Norman Mailer, Tom Wolfe, Gay Talese e outros encontravam liberdade para exercer seu talento em artigos que traziam de sobra todo o ritmo e criatividade que faltavam aos filmes.

Foi do ambiente de trabalho que Benton e Newman se alimentaram para dar início a seu projeto. O texto embrionário de Bonnie And Clyde foi quase todo escrito durante o expediente entre as paredes da redação da Esquire. A dupla tirava proveito de tal liberdade justificando suas escapadelas como “saídas para pesquisa” que na verdade eram usadas para sessões de Hitchcock e cinema europeu ou para visitar sebos em busca de livros sobre gangsteres, literatura policial pulp e artigos em jornais e revistas sobre o bando dos irmãos Barrow. Ai se encontra um dos principais atrativos da reportagem de Mark Harris. O livro faz um relato pormenorizado de cada um dos filmes, desde as idéias originárias para concepção das obras até sua materialização em película, apropriando-se de elementos da cultura pop para fazer um retrato histórico-social do período.

Da publicação de Misses Robinson, romance de Charles Webb propagandeado como novo O Apanhador no Campo de Centeio e fracassado nas livrarias, até sua reinvenção fílmica com A Primeira Noite de um Homem, dirigido por Mike Nichols que traz o jovem Dustin Hoffman na atuação que o levou ao estrelato, Harris destrincha o meio cinematográfico e o star system no contexto das profundas mudanças e conflitos sociais que marcam a época.

Aqui nos é apresentado um Sidney Poitier insatisfeito com os papéis edificantes que lhe eram oferecidos, mais para dar um verniz progressista ao conservadorismo da indústria do que para valorizar seu talento. Inteligente, sobre sua conquista do Oscar em 1964, pela atuação em Uma Voz nas Sombras – inédita premiação a um ator negro, celebrada na mídia como sinal de mudanças –, ele declara: “Eu ainda era o único ali”. Tentando se equilibrar entre o astro e o ativista pelos direitos civis em luta por maior participação de afro-americanos nos filmes, Poitier sabia que, como um dos únicos astros de sua raça – o outro era Harry Belafonte –, naquele contexto, não poderia aceitar papéis que o apresentassem de forma negativa. Porém, sabia ser capaz de atuar como Rei Lear, por exemplo, como qualquer ator branco. Foi no protagonista de No Calor da Noite que finalmente encontrou um personagem que não se baseava em clichês raciais.

Harris revela curiosidades interessantes sobre os filmes. Bonnie and Clyde, por exemplo, passou de mão em mão até chegar a Warren Beatty que estreava como produtor e não pretendia atuar. Para ele, o papel de Clyde Barrow deveria ser feito por Bob Dylan. François Truffaut chegou a vê-lo como ideal para sua estréia na direção de um filme norte-americano, depois entregou o roteiro à Godard. A passagem entusiasmada, porém breve, de Jean-Luc oferece um dos momentos mais divertidos do livro. Ele pretendia rodar tudo em Nova Jersey no mês de janeiro. Na primeira reunião com os produtores, teria sido informado que o clima não favorecia as filmagens na data planejada. Reforçando sua fama de difícil, o diretor teria respondido: “Eu estou falando de cinema e você, de meteorologia!” Abandonando a reunião em seguida para nunca mais tocar no assunto.

Colunista da Entertainment Weekly, o estilo de Mark Harris lembra o de mestres do jornalismo literário como Gay Talese. Ele sabe explorar fatos que, para muitos pesquisadores, poderiam parecer banais.

Na passagem sobre uma festa oferecida pelo casal Jane Fonda e Roger Vadim, por exemplo, o escritor enxerga um evento carregado de simbolismo. Numa das primeiras e raras vezes em que a antiga e a nova Hollywood estiveram sob o mesmo teto, os expoentes da velha guarda teriam se incomodado com o folk eletrificado emitido pelos amplificadores da banda The Byrds no palco montado exclusivamente para a apresentação. Irritado, o patriarca dos Fonda, Henry, teria gritado ao filho, Peter: “Dá para pedir para eles baixarem o volume?”

A festa, que ainda teria Peter Fonda subindo no telhado da casa para gritar: “Deus abençoe a maconha!”, é representativa do momento de ruptura. Nos anos que se seguiram, a geração de Henry e outros convidados, como Gene Kelly, William Wyler e Lauren Bacall, seria destronada pelos ilustres desconhecidos ali presentes, a maioria oriunda das produções B de Roger Corman. Gente como Dennis Hopper, Jack Nicholson e o próprio Peter Fonda.

A nova Hollywood começava a tomar forma embalada pelas guitarras elétricas dos Byrds. A invasão bárbara seria concluída com a chegada de Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, Brian De Palma, George Lucas, Steven Spielberg e outros.

Mas ai já é outra história, ficando aqui a dica de Easy Riders, Ranging Bulls – no Brasil, Como a Geração Sexo, Drogas & Rock´n´Roll Salvou Hollywood (Intrinseca Editora) –, de Peter Biskind, como sequencia perfeita após a leitura do ótimo lançamento da L&PM.

 

Serviço:

 

Título: Cenas de Uma Revolução – O Nascimento da Nova Hollywood

Autor: Mark Harris

Editora: L&PM Editores

488 páginas

 

H. P. Lovecraft

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Contra vampiros emos e lobisomens vegans, Lovecraft é a cura

 

Vida e obra de um dos mais criativos e brilhantes autores fantásticos da era moderna ganham as livrarias brasileiras, em plena era do Terror Ritalina.

Por César Alves

 

A galeria de monstros assustadores que povoam o imaginário humano desde tempos imemoriais, como vampiros, zumbis, gárgulas, lobisomens e demais criaturas mitológicas e folclóricas, quase que em sua totalidade, vem passando por um processo de transformação e modernização, desde o advento da indústria do entretenimento – nem sempre bem vindo, tendo em vista os vampiros emos e licantropos vegetarianos dos livros e filmes blockbusters recentes, que fazem a cabeça da garotada. A mesma indústria que ajudou a tornar ainda mais populares e não menos assustadores – nas interpretações de Boris Karloff, Lon Chaney, Max Schreck, Bella Lugosi e Christopher Lee – parece hoje decidida a destruir a reputação dos personagens de terror clássicos.

Um aficionado por teorias conspiratórias poderia nos chamar a atenção para o detalhe de que ela também é responsável por alguns dos protagonistas dos terrores noturnos contemporâneos, como Freddy Krueger, Jason de Sexta-feira 13, Alien e o Predador, entre muitos outros.

Não acho que seja o caso e estou quase certo de que a coisa tem mais a ver com a percepção, por parte dos produtores e empresários culturais, de que adolescentes, com déficit de atenção, hiperatividade e muito dinheiro dos pais pra gastar, ofereciam um nicho inexplorado para autores e diretores com dislexia. Inventaram o Terror Ritalina ou Ficção Fantástico-Anencefálica (rótulos meus – prometo, que serão os primeiros e últimos).

Achei que não tinha mais volta, estávamos pegos e até passei a amaldiçoar Anne Rice e a culpar seus vampiros metrossexuais – apesar de não listá-la entre os autores e roteiristas a quem me refiro, afinal, possui seus méritos – como precursora disso tudo. Isso até que um de meus sobrinhos, depois de ler O Iluminado e outros de Stephen King, me perguntar por H. P. Lovecraft e me pedir emprestado alguns de seus livros. Levou três deles e, pouco mais de uma semana depois, voltou em busca de outros.

Ta bom, pode ser fato isolado, mas, pouco depois, na livraria de um amigo, chegam algumas garotas saudáveis, bem alimentadas, recém saídas da adolescência, prováveis leitoras da série Crepúsculo, procurando por Lovecraft, citando de memória os títulos que queriam.

Percebendo minha surpresa com a cena, depois de as moças saírem, comenta o amigo livreiro:

“O Lovecraft anda bem popular, entre a garotada. Todo dia, vem alguém aqui procurando. Sempre uma molecada nova, meio moderninha. Sempre foi Cult. Mas ta ficando pop entre os adolescentes.”

Ele disse num tom jocoso, mas, se fosse verdade, achei ótimo, perceber que, ao menos uma parte dos garotos e garotas de hoje estivessem abandonando o Harry Potter, principalmente, sabendo o que a leitura de O Alquimista fez no processo de estupidificação de boa parte dos garotos e garotas da minha época.

Se Lovecraft virou pop, não tenho ainda certeza, mas ver o Cthulhu – entidade cósmica, criada e citada pelo autor em diversas de suas histórias – aparecer em um episódio recente da escatológica animação de Matt Stone e Trey Parker, South Park, pode ser um sinal.

Considerado um dos maiores mestres da arte literária em explorar o fantástico e o medo, Howard Phillips Lovecraft vai muito além. Nascido em 1890, admirador incondicional de Edgar Allan Poe, sua colaboração para com o gênero extrapola concepções, estéticas e convencionais. Criador de toda uma mitologia própria de seres fantásticos e criaturas tão inacreditáveis, quanto assustadoras, Lovecraft praticamente reinventou a literatura de terror, ao misturar com desenvoltura e muita criatividade, o sobrenatural, o científico e o filosófico.

Dono de um intelecto único e pesquisador dedicado do oculto e ciências gerais, em sua obra, o impossível e o fantástico não eram gratuitos. Embora concebido como ficção e sem a pretensão do realismo, em sua grande maioria, para serem publicados em revistas baratas e escapistas – pulp fictions –, suas tramas e situações, seu universo e os personagens que nele vivem, são criados dentro dos limites do possível e, como toda grande obra do gênero, é da ocorrência fantástica, dentro dos limites do real, que provoca medo. Carregadas de seres criptozoológicos, descobertas criptocientíficas e conceitos criptofilosóficos, narrativa alucinante, fruto de uma mente brilhante – insana, para muitos –, suas histórias lhe renderam uma série de rótulos para descrevê-la como única e original, como Weird Fiction, para ficarmos apenas na minha preferida.

Fruto ou não de uma suposta redescoberta do autor por novos leitores, a ótima notícia é que a obra de Lovecraft vem recebendo de editoras como a Iluminuras e Hedra o respeito merecido e, como exemplo e indicação, tanto para novos, quanto para admiradores antigos, segue abaixo alguns dos títulos imperdíveis, disponibilizados nas livrarias brasileiras recentemente.

Pela Iluminuras, que já publicou outros títulos como A Cor que Caiu do Céu, Nas Montanhas da Loucura e O Horror Sobrenatural em Literatura (obra de não ficção, onde o mestre desenvolve um estudo profundo sobre o gênero que adotou e revolucionou), acaba de lançar também O Horror em Red Hook, A Maldição de Sarnath e A Procura de Kardath.

Já a editora Hedra, que há pouco tempo publicou Os Melhores Contos de H.P. Lovecraft, lança A Vida de H.P. Lovecraft, estudo biográfico e artístico, escrito por J.T. Joshi, respeitado mundialmente como um dos maiores especialistas sobre o autor.

Nada mais a dizer, aos amigos e amigas leitores, deleitem-se:

 

Serviço:

 

Título: À Procura de Kadath

Título: A Maldição de Sarnath

Título: O Horror de Red Hook

Autor: H.P. Lovecraft

Editora Iluminuras

 

Título: Os Melhores Contos de H.P. Lovecraft

Autor: H.P. Lovecraft

Título: A Vida de H.P. Lovecraft

Autor: S.T. Joshi

Editora: Hedra

Mark Twain – Diários de Adão e Eva

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O Evangelho, segundo o Estranho Misterioso Mark Twain

Por César Alves

 

Era com admiração e entusiasmo que Samuel Langhorn Clemens assistia o surgimento das maravilhas científicas e tecnológicas que, em meados do século dezenove, imprimiam às previsões sobre o futuro da humanidade a marca da grandeza. Signatário do manifesto contra as atrocidades praticadas pelo soberano da Áustria, Leopoldo, e o domínio de seu país no território do Congo, durante o neocolonialismo europeu no continente africano, Clemens não se dobrava diante das injustiças praticadas pela mesma espécie, quando se mostrava indigna do destino grandioso que tais invenções pareciam descortinar.

Amigo pessoal de Nikola Tesla, Clemens sonhava com o potencial para o bem da humanidade que os experimentos com a eletricidade realizados pelo colega e testemunhados por ele, mas não deixava de ver com desconfiança o verdadeiro uso que seria feito das novas tecnologia, diante da ganância humana, nas mãos erradas.

Era um humanista, mas um humanista descrente da vocação do homem para a prática do humanismo e do bem comum. Autor de clássicos incontestáveis da literatura universal como As Aventuras de Tom Sawyer e Hunckleberry Finn, Clemens ficou famoso como Mark Twain, mas é em seus escritos menos conhecidos – a maioria, datada de seus últimos anos de vida e publicados de forma póstuma – que tal característica é mais evidente.

Exemplo e também o predileto deste que vos escreve é O Estranho Misterioso. Foi o livro que despertou meu interesse pelo autor, quando costumava desprezar autores indicados por pessoas mais velhas e desconfiar de livros que meus professores gostavam, por volta dos dezessete anos, li pela primeira vez.

Aqui você não encontrará o satirista notório e as tramas juvenis que fizeram a fama do autor. Ambientado em uma pacata aldeia da Idade Média, a trama gira em torno de um garoto e uma estranha criança que aparece de forma misteriosa e muda completamente a vida dos habitantes do lugar. Capaz de prever o futuro e operar milagres, como é do feitio dos anjos, seu nome é Satã e é em suas falas que se encontram alguns dos melhores momentos da narrativa, como por exemplo: “(…) Deus não existe, nenhum universo, nenhuma raça humana, não há vida terrena, nem céu, nem inferno. É tudo um sonho, um sonho grotesco e tolo Nada existe, a não ser você . E você é mais um pensamento, um pensamento vadio, um pensamento inútil, um pensamento andarilho, vagando abandonado entre as eternidades vazias!”

Trata-se uma das histórias mais densas e filosóficas de Twain e revela muito sobre o estado psicológico e emocional do autor em seus últimos anos. Fora de catálogo, ainda deve ser possível encontrar exemplares da tradução brasileira que conheço, da editora Axis Mundi, em alguns sebos e livrarias de usados.

Como testemunha ocular e protagonista da história do Gênese, o Anjo Caído também aparece, como orientador dos ingênuos Adão e Eva, em alguns dos melhores momentos dos textos que compõem este recente lançamento da editora Hedra, Diários de Adão e Eva.

Carregado de humor e menos denso do que o primeiro título, Diários de Adão e Eva é apresentado como relatos íntimos e pessoais do Primeiro Casal Bíblico, da expulsão do Éden aos problemas com os filhos, Caím e Abel.

Apesar da carga polêmica que os personagens que protagonizam a narrativa possuem, é preciso ler o livro como uma análise do comportamento humano, principalmente o relacionamento amoroso e conjugal, e não como uma obra religiosa.

Ambas as obras ainda muito atuais, oferecem-nos uma faceta menos conhecida de Mark Twain.

 

Serviço:

Autor: Mark Twain

Título: Diários de Adão e Eva

Editora: Hedra

140 páginas

 

Título: O Estranho Misterioso

Editora: Axis Mundi

214 páginas

A Lenda do Santo Beberrão – Joseph Roth

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A Redenção da Boemia

 

Um dos melhores escritores europeus do período entre guerras, Joseph Roth, volta à nossas livrarias com as traduções de A Lenda do Santo Beberrão e Hotel Savoy.

Por César Alves

 

Você está numa biblioteca ou livraria e, como que por mágica, um estranho aparece e se identifica como sendo a Morte, avisando-lhe de que seu tempo está prestes a chegar ao fim. Mas, como é do comportamento do Ceifador – a Morte odeia se atrasar e por conta disso, sai cedo de casa para cumprir com seus afazeres –, ele se adiantou demais e informa que você ainda tem entre vinte minutos e meia hora de vantagem, antes de seguirem viagem. Sabendo que é muito pouco tempo para qualquer outra coisa, ele sugere que escolha um livro e faça sua última leitura, já que gosta de ler.

A pegadinha é: Que obra você escolheria?

A brincadeira era feita entre amigos que gostavam de literatura, normalmente ao redor de uma mesa de bar e com muita cerveja. Depois de ouvir da maioria que escolheriam seus poemas prediletos de As Flores do Mal de Baudelaire, Uma Temporada no Inferno de Rimbaud, algo do Bandeira ou um conto de Tolstói e etc, eu dizia que convidaria a Indesejada para ir comigo até um bar para tomarmos a saideira definitiva e, dando uma de Compadre da Morte, como no mito folclórico, tentaria ludibriá-la, embriagando-a e convencendo a danada a cair na farra em direção ao Baixo Augusta. Não funcionando, escolheria como livro derradeiro o belo A Lenda do Santo Beberrão de Joseph Roth.

A protocrônica cotidiana acima é só para falar do grato lançamento – não tão recente, aliás – da Editora Estação Liberdade. Há alguns meses, a editora lançou por aqui traduções de dois títulos de Joseph Roth; A Lenda do Santo Beberrão – principal tema de nosso papo aqui – e Hotel Savoy.

Considerada “Obra-testamento”, A Lenda do Santo Beberrão foi o último livro escrito por Joseph Roth, também autor de A Teia da Aranha (1923) e A Marcha de Radetzky (1932) e um dos grandes autores universais pouco lidos no Brasil.

A escolha da pedida literária para meus últimos vinte minutos sobre a terra não é apenas por ser uma das minhas preferidas, é que também é possível ler o livro, do início ao fim e sem pressa, em pouco mais de um terço de hora. Trata-se de uma belíssima e curta novela de 22 páginas, capaz de tocar até mesmo aqueles que trazem um bloco de mármore ao invés de um coração batendo no peito.

Escrita como um misto de fábula e parábola cristã – mas nada carola é bom frisar –, A Lenda do Santo Beberrão começa como uma crônica cotidiana ambientada na Paris das primeiras décadas do século vinte, quando toda a Europa vivia envolta em névoas de incerteza, entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial.

Seu protagonista é um mendigo e alcoólatra que vaga pelas ruas e cantos menos iluminados da Cidade Luz, como os muitos que assim o faziam na época. Certa noite, quando se abrigava sob uma ponte do Rio Sena, aproxima-se um senhor muito bem vestido que puxa assunto e lhe oferece uma grande soma em dinheiro (200 Francos). Segundo o estranho benfeitor, o sem teto teria sido posto em seu caminho por designação divina, tendo em vista que ele, sendo um homem de fé, estava a cata de uma ação benevolente a um desconhecido como que para pagar uma promessa em agradecimento à bondade de Deus que nunca lhe faltara.

Apesar de suas condições, o miserável recusa a oferta, não por orgulho, mas por nutrir um profundo senso de retidão e idoneidade. Jamais aceitaria uma soma monetária por caridade, a ser que pudesse compensá-la com seu trabalho ou ter como devolvê-la, como um empréstimo, assim que se encontrasse em melhor situação.

Sendo ambos devotos de Santa Terezinha de Lisieux, o impasse é resolvido com o mendigo se comprometendo a devolver o valor que lhe é entregue à caixa de donativos da igreja da santa, no prazo de uma semana.

Com mais dinheiro do que jamais possuíra, o pobre coitado aproveita para alugar um quarto num albergue, tomar um banho e dormir numa cama, como não fazia há anos. Boêmio e incapaz de resistir ao chamado da boemia, ele torra todo o dinheiro com bebidas e mulheres.

A partir daí, a trama gira em torno do protagonista, personagens que ele encontra e as situações inusitadas por que passa durante sua obstinada busca para cumprir com sua promessa. Ele consegue o dinheiro, às vezes quase que por milagre, mas de uma vez. Mas, sempre que está prestes a pagar a dívida para com a santa, algo acontece.

Além de ser sua obra derradeira, o motivo de A Lenda do Santo Beberrão ser considerada a “obra testamento” de Joseph Roth também diz respeito ao conteúdo autobiográfico da novela. O protagonista da trama, nada mais é que um alter ego do autor, tendo com seu criador diversos pontos em comum. Assim como o mendigo, Roth também mantinha uma vida de andarilho. Embora sua trajetória e carreira tenham obtido reconhecimento na época, entre a Alemanha e a França, o autor nunca adotou um endereço fixo ou duradouro, viajando e passando por diversos países europeus até seus derradeiros dias. Além de religioso, como seu personagem, Roth também era alcoólatra, entre outras coisas em comum.

Adaptado para o cinema pelo diretor italiano Ermano Olmi, A Lenda do Santo Beberrão ganhou o Leão de Ouro de Veneza de 1988. O filme merece ser visto. Além de ser uma feliz adaptação, também e traz a boa interpretação do holandês Hutger Hauer como o mendigo.

Filho de uma família judaica de Brody, hoje parte da Ucrânia, Joseph Roth nasceu em 1894, nos dias finais do Império Austro-Húngaro. Além de brilhante jornalista, sua obra ficcional foi marcada por personagens à margem de uma Europa angustiada pelo pesadelo diário que marcaram os dias do período entre guerras, que o autor conseguiu retratar como poucos.

Deprimido com os acontecimentos que assolavam o continente europeu, precedendo a inevitável guerra, principalmente a ascensão do nazismo na Alemanha, e cada vez mais mergulhado no alcoolismo, Joseph Roth faleceu em Paris, em 27 de Maio de 1939.

 

Joseph Roth nas livrarias:

Como dito acima, apesar de sua importância e qualidades indiscutíveis, Joseph Roth parece pouco lido ou, no mínimo, menos comentado e difundido do que sua obra merece. Mas existem bons títulos do autor em nossas livrarias e, além dos dois títulos lançados pela Estação Liberdade – A Lenda do Santo Beberrão e Hotel Savoy –, sugiro outros dois ótimos livros da Companhia das Letras abaixo:

Berlim – Ótimo título da não menos ótima coleção Jornalismo Literário da editora, o livro compila artigos que revelam o brilhantismo do trabalho de Joseph Roth como homem de imprensa. Aqui, o autor faz uma crônica da Berlim da década de 1920. Em suas andanças, o autor destrincha o cotidiano da antiga capital prussiana, quando coração da recém-inaugurada República de Weimar. Passeia por bosques e praças e edifícios e bondes, refletindo sobre o significado da natureza, diante da paisagem artificial da modernidade. Caminha entre bairros de imigrantes, decifra a vida noturna berlinense e visita campos de refugiados e faz um tour pela cidade ao lado de um criminoso que acaba de sair da prisão para, através da ótica de seu companheiro, compreender a medida das transformações ocorridas na metrópole.

– Aqui, reencontramos o grande escritor de ficção e fascinante tradutor de seus dias. Usando como pano de fundo os dias que marcaram o início da primeira guerra, Joseph Roth narra a trajetória do judeu e muito religioso, Mendel Singer, para criar uma releitura do livro de Jó. Homem modesto e temente a Deus, Singer vive com sua família numa cidadezinha russa. Apesar de humildes, são felizes e gratos pela vida que levam. A tranqüilidade e os bons dias que Singer atribui à benevolência da Providência Divina acabam com o estouro do conflito e, assim como o personagem bíblico, o personagem descobre-se face a um teste para comprovar sua fé.

 

Um Diário do Ano da Peste – Daniel Defoe

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O Novo Jornalismo (Gonzo?) nos Dias da Peste

por César Alves

 

“O New Journalism é como o Punk: Tem tantos pais que,se a concepção não ocorreu durante uma orgia, as mães, certamente, não acreditam na monogamia”, já disse a colegas de profissão, em diversas ocasiões, quando o assunto é o Jornalismo Literário e a geração americana que ganhou notoriedade como Novo Jornalismo.

A brincadeira tem mais a intenção de fazer rir do que provocar e, muito menos, ofender a(s) progenitora (s) – longe de mim, isso de colocar a mãe no meio (risos) – um gênero ligado a gente que me influenciou muito, como Gay Talese, Truman Capote, Tom Wolfe, Norman Mailer, Hunter Thompson – na sua própria versão, o Jornalismo Gonzo – e outros.

Por outro lado, não é de toda desprovida de sentido. Afinal, como jornalismo literário, técnica de reportagem que une formas narrativas e estilo vindos da literatura ao texto jornalístico não é exatamente uma criação da América do pós-guerra. John Reed e outros já o faziam no início do mesmo século. Aqui no Brasil, Joel Silveira, A Víbora, já dava às suas reportagens o ritmo e o tratamento que os grandes escritores dão à ficção na década de 40 – para ficar apenas no meu predileto, entre muitos outros brasileiros que souberam unir muito bem o jornalismo e a literatura.

Mas é possível afirmar que, muito antes disso, jornalismo e literatura deitavam-se na mesma cama. O que dizer, por exemplo, dos textos escritos pelo poeta alemão, ícone do romantismo germânico, Heinrich Heine, durante o período em que se exilou na França e decidiu aproveitar sua boa relação com a efervescente agitação cultural parisiense para cobrir espetáculos teatrais e grandes eventos sociais para editores de seu país de origem? São do início do século dezoito.

Sendo possível construir uma árvore genealógica do New Journalism e mesmo do estilo Gonzo de Hunter Thompson – como o leitor irá descobrir mais adiante –, a partir dos exemplos citados acima, o autor de Robinson Crusoé e Moll Flanders, Daniel Defoe, talvez tenha lugar privilegiado, como um dos primeiros a praticá-lo. Seu Um Diário do Ano da Peste (A Journal of The Plague Year – 1722) foi defendido por muita gente – Gabriel Garcia Marquez, entre os mais notórios – como um dos primeiros livros reportagens da história.

E não é pra menos. Inquietante e surpreendente, a obra narra os dias sombrios da epidemia que assolou Londres entre os anos de 1665 e 1666, resultando em um número de vítimas calculado entre 75 e 100 mil mortos – um quinto da população da cidade.

Conta-se que Defoe teria se recusado a aceitar o conselho de familiares e amigos para que buscasse refúgio fora de Londres, até que o contágio fosse controlado, como fizeram todas as pessoas de posses e membros da elite londrina. Acreditando que fugir seria inútil e, conforme a praga fosse se espalhando, cedo ou tarde ela o pegaria, não importando sua localização. Decidido a não se trancar em casa, o autor passou a registrar os acontecimentos durante a epidemia, como registro histórico para a posteridade ou forma de passar o tempo, até que a doença fosse controlada ou o vitimasse.

Trata-se uma reportagem completa, com direito a dados estatísticos sobre número de contagiosos e vítimas fatais, entrevistas com famílias e descrição dos fatos, trazendo já em sua essência uma das características mais marcantes do Novo Jornalismo: O repórter, narrador, também como agente participante da história.

Bom, o amigo leitor pode achar meus argumentos convincentes, quanto ao livro ter características de jornalismo literário e até do New Journalism, mas estar se perguntando: Onde o Gonzo entra na história?

Já explico.

Além de autor de ficção, Defoe era também jornalista – editou seu próprio periódico, The Review, por conta própria –, e escreveu sua obra como depoimentos de uma testemunha ocular da história e, durante muito tempo, muita gente a enxergou assim. O relato fidedigno, os dados numéricos comprovados com exatidão, o fato histórico e a seriedade narrativa apóiam a tese e assim a obra continuou sendo divulgada mesmo muitos anos após a morte de Defoe.

Décadas depois, no entanto, biógrafos de Daniel Defoe se depararam com uma questão surpreendente em relação ao Diário do Ano da Peste: os números não batiam! Comparando as datas de nascimento do autor com o ano em que ocorreu a epidemia de peste bubônica em Londres, os relatos não poderiam ter sido registrados por ele que, na época, estaria com idade entre cinco e seis anos!

Ora, mister Defoe não só abusou do estilo jornalismo literário, como também deve ter feito o primeiro livro reportagem Gonzo conhecido. No mínimo, uma pegadinha digna de Hunter Thompson!

As experiências jornalístico-literárias de Daniel Defoe, no entanto, não terminam ai. Em 1723, durante uma visita à Escócia, o autor tomou conhecimento da história de um fora-da-lei local, Rob Roy. Pesquisando a respeito de sua história, tomou conhecimento de que o bandido era na verdade Robert Roy McGregor, do clã McGregor, que, após aderir à Rebelião Jacobita e ser derrotado na batalha de Glen Shiel, teria tido suas terras expropriadas e partido para a clandestinidade, realizando roubos e assaltos que eram contados como lendas pela população local.

Vendo ai uma grande história, Defoe escreveu um relato romanceado, dando seus toques pessoais a trama, contando as aventuras de Rob Roy, como o rebelde libertário que “roubava dos ricos para dar aos pobres”, Highland Rougue. O texto fez sucesso, tanto na Escócia como em toda a Europa, e elevou a lenda de Robin dos Bosques para a de herói nacional. Graças ao texto, em 1723, o Rei George I acabou vendo-se obrigado a dar a seu desafeto político o perdão real.

Robert Walser – Absolutamente Nada e Outras Histórias

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A Intencionalidade Superior de Robert Walser

Livro reúne 41 textos curtos do autor suíço que influenciou nomes como Elias Canetti, Franz Kafka e Herman Melville, entre outros, oferecendo nova oportunidade aos leitores brasileiros de mergulhar no universo literário de um dos grandes autores europeus esquecidos por nossas editoras.

Por César Alves

 

No Brasil, podemos ler menos coisas de Robert Walser do que sobre ele. O que não significa que estamos bem servidos de material biográfico sobre o autor, já que sua trajetória pessoal continua envolta em mistério, passagens jamais confirmadas de fontes pouco confiáveis e um sem número de lendas que, graças ao culto em torno de Walser e sua obra, só fizeram crescer, desde sua morte. Mas, ao contrário do que diz Walter Benjamin na abertura de seu artigo sobre Robert Walser, mal parafraseado por este amigo que vos escreve, no Brasil o autor é muito comentado e pouco lido.

Praticamente ignorado por nossas casas editoriais, apesar do peso de seu nome – além de Benjamim, Walser é citado como referência e verdadeira admiração por nomes como Herman Melville e Franz Kafka, entre outros – e da incontestável qualidade e grandiosidade de sua obra, tendo apenas uma quantidade miserável de seus títulos traduzidos e publicados por aqui – se não me engano, até agora, apenas dois de seus livros haviam sido lançados no Brasil. Motivo mais que justo para recebermos com festejos e fogos de artifício a chegada de Absolutamente nada e outras histórias, que a editora 34 acaba de lançar.

Reunindo 41 textos curtos do autor, o volume foi traduzido diretamente do alemão por Sérgio Tellaroli e oferece oportunidade imperdível aos leitores brasileiros de entrar em contato com autor cuja simplicidade narrativa – carregada de imaginação, inventividade e sensibilidade, no que diz respeito ao conteúdo – ultrapassa o sublime, expondo uma complexidade temática, filosófica e lírica, poucas vezes vista na literatura universal.

O que este escriba traduz aqui – muito porcamente – por simplicidade narrativa e que Walter Benjamin chamou, corretamente, de “extrema ausência de intenção”, em seu excelente artigo sobre Robert Walser (pode ser encontrado na edição brasileira de Magia + Técnica. Arte + Política, de Walter Benjamin, publicado no Brasil pela Editora Brasiliense), seria um dos motivos de o autor ser tão pouco explorado e praticamente ignorado por estudiosos e especialistas em literatura, tão dedicados que são às formas e técnicas da construção estética, como reguladora e juízo de valor da escrita como arte. O fato de o próprio Robert Walser, certa vez, ter declarado jamais revisar seus textos, ao que tudo indica, talvez tenha colaborado para que sua obra, embora reconhecida, cultuada e sempre reeditada na Europa, tenha recebido muito menos atenção dos especialistas do que realmente merece, ao longo dos anos e décadas.

É ao artigo de Benjamin que, novamente, recorro para dizer que é justamente na ausência de intencionalidade de Walser que pode estar o grande valor de sua escrita de inventividade. Sua despretensão, no fundo, revela uma “intencionalidade superior”, conforme descreve Walter Benjamin – tomado de empréstimo para intitular este texto.

Tal intencionalidade superior em sua ausência de intenções é nítida nos textos que compõem o recente lançamento. O autor levou sua vida de forma nômade e é justamente o olhar humano de um viajante, traduzindo a complexidade da existência, sob a simplicidade da vida e o que ela oferece de melhor e pior o que encontramos em cada uma das deliciosas páginas do livro. Walser amava as mulheres e aqui há muitas delas, no que todas elas têm de delicado e também no que não têm; o amor é força motriz de algumas histórias, portanto, há amor, mas também não há, posto que, para o autor, no fundo, todo individuo é um solitário.

Aqui o autor discorre sobre o romance impossível de uma cegonha e um porco espinho; um anjo que não come porque a comida cansa; a descoberta do amor por um macaco; e a nitidez com que se desmascara a frágil existência humana, quando vista do alto, durante um passeio de balão. Mas há também ensaios sobre a liberdade, considerações sobre O Idiota de Dostoiévski, uma cara de solicitação de emprego nada corriqueira e um humor, fino e sarcástico maravilhoso.

Exemplo da genialidade e brilhantismo do autor de dizer muito, parecendo dizer absolutamente nada, é o brilhante conto que dá nome ao livro. Num breve e pobre resumo deste que vos escreve, fala sobre uma Esposa que vai ao mercado fazer compras, com o objetivo de oferecer um jantar especial ao Marido. Ela pode escolher o que quiser levar e se perde em meio a tanta variedade de produtos e possibilidades disponíveis. Podendo levar de tudo, ela decide levar “absolutamente nada”.

Quando, à noite, o Esposo chega do trabalho, pergunta à Mulher:

“O que teremos para o jantar?”

“Absolutamente, nada!”

Ela responde.

Seu cônjuge estranha, mas nada diz. E a mulher esclarece:

“Precisamos variar o cardápio, pois é um dia especial. Então, hoje me dediquei a preparar absolutamente nada.”

O marido sorri com ternura e sente-se feliz com a dedicação de sua amada.

Eles, então, se sentam à mesa. Preenchem seus pratos com absolutamente nada, saboreiam e se fartam com porções de absolutamente nada e, no final, sentem-se satisfeitos com absolutamente nada.

Nascido em Biel, Suíça, em 1878, Robert Walser escreveu três romances, diversos volumes de contos e prosas curtas, além de incontáveis páginas e artigos para jornais e revistas. Apesar de sua importância e do reconhecido valor de sua obra, até agora, apenas dois títulos de sua autoria estavam disponíveis em nossas livrarias, vertidos para o português: O Ajudante (Arx, 2003), traduzido por Zé Pedro Antunes; e Jacob van Gunten (Cia das Letras, 2011), tradução de Sérgio Tellaroli, o mesmo tradutor de Absolutamente nada e outras histórias, objeto de nosso artigo.

Após uma produção intensa, em 1925, Robert Walser publicou seu último texto Die Rose (A Rosa). Em 1929, aos 50 anos de idade, o autor teria se internado  numa clínica psiquiátrica. Seu estado psicológico só agrava a partir daí, gerando diversas internações, até a última delas, em 1933, na qual permaneceria até o fim de seus dias. Walser teria falecido no natal de 1956, enquanto caminhava solitário, como costumava fazer, nas dependências da instituição mental. Seu corpo teria sido encontrado caído na neve por funcionários.

O culto a Robert Walser e sua obra, só fez aumentar, depois de sua morte. Até hoje, a possibilidade de o autor ter escrito inéditos posteriores a 1925, ainda gera lendas e histórias jamais confirmadas. Uma das lendas relativas aos seus últimos anos de que gosto conta que, durante sua última internação, depois de mais de duas décadas sem publicar e muita duvida no meio literário sobre se o autor ainda estaria ou não vivo, um jovem repórter teria conseguido se infiltrar no hospital para tentar uma entrevista. Segundo reza a lenda, Walser não se comunicava com ninguém, passava seus dias passeando pelas dependências da instituição e cuidando de um jardim, onde teria acontecido o suposto encontro. O repórter teria tentado estabelecer contato com o autor de várias formas. Walser, no entanto, apenas teria ignorado suas investidas, dedicando-se aos cuidados para com o jardim, como se ele não estivesse ali.

Cansado de tentar, certo de que não arrancaria nada e conformado em não obter qualquer resposta às suas perguntas, teria feito uma última tentativa:

_ Se puder me responder ao menos uma pergunta, senhor Walser, me diga se o senhor ainda escreve…

Tendo como resposta apenas o silêncio, o jovem se despediu e seguiu seu caminho. Já de costas, poucos passos a frente, em direção da saída, o escritor teria exclamado em voz baixa:

_ Eu não estou aqui para escrever. Estou aqui para ser louco.

Fato ou ficção, acho a lenda, no que tem de bela e melancólica, digna de um ficcionista cuja própria vida gera ficção.

 

Serviço: Absolutamente nada e outras histórias

Autor: Robert Walser

Tradução: Sérgio Tellaroli

Editora: Editora 34

170 páginas