Sebo

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Guia de Sebos

O nome “sebo” vem exatamente do que o leitor pode estar pensando. Substância gordurosa, e está diretamente ligada à resina utilizada na fabricação velas. Única forma de conseguir luminosidade para leitura, à noite, antes da invenção da Luz Elétrica.

Não havia eletricidade

Imagine-se num período em que não havia luz elétrica mas você, ávido leitor precisava da sua leitura até altas horas. Então você acendia uma vela, mas elas não eram feita da atual parafina e sim de gordura de animais. Um exemplo é a feita de baleia. A atenção à leitura permitia sujar os livros, esses blocos de papel encadernados ficavam ensebados. Essa é uma possibilidade já que os sebos são livrarias que vendem livros de segunda mão.

Outras possibilidades

Outras possibilidades também plausíveis:

Um livro tão lido e passado de mão e mão.

Os anos o deixa com várias marcas de mãos do que o manuseou, acabou ensebado e foi parar numa loja cheia de livros.

Mas também tem os muitos manuseados por diversas mãos, o Sebo, então ficou sendo o nome desse tipo de livraria .

Outras línguas

Em espanhol se utiliza o nome Librero de Viejo e em inglês, Used bookstore. O princípio é o mesmo e o nome é comum apenas no Brasil. Em Portugal se utiliza Alfarrábio, isto é livros de antiquários. Bem, o Brasil possuí uma imensa população, infelizmente, ainda muito pouco leitora. E os sebos desenvolvem um importante papel na democratização do acesso ao livro. Eles não são apenas lugares de curiosos, colecionadores e pesquisadores. Porque uma parte leitora da população não tem acesso a uma renda que permita comprar um livro novo. Mas estes podem recorrer a ele como meio de leitura.

O sebo na expansão da cultura

Ele preenche uma lacuna de nossos espaços culturais porque oferecer livros a um preço mais módico e também guarda a história da circulação do livro e de seus frequentadores. O sebo, no Brasil, é muito mais que uma loja de produtos, é antes de tudo um centro cultural disponível para comprar e para vender livros. Uma visita, mesma que rápida, lhe colocará em contato com um mundo fascinante, impossível de encontrar em uma livraria ou mesmo numa biblioteca, sua diversidade bibliográfica nos conduz aos labirintos de inúmeras histórias ocultas.

É um achado afetivo também, porque o objeto do livro continua a servir mesmo depois de muito ser usado. Só que o mais importante é, há mensagens transmitidas por eles que não envelhecem, outras estão sempre em renovação esperando de um descobridor. Há muita histórias por trás de tudo, aos poucos contaremos,não se pode dar tudo que se tem de uma vez, é preciso destilar aos poucos esse álcool em que se pesa os livros.

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O Melhor da Senhor – Livro

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Memórias da Senhor

 

Dois livros assinados por Ruy Castro e Maria Amélia Mello reúnem poesia, contos, crônicas, ensaios fotográficos e traduções publicados na revista Senhor, que circulou no País entre 1959 e 1964. Trazem ainda bastidores da publicação que marcou uma época e entrou para a história do jornalismo

César Alves

 

No final da década de 1950, o País respirava os ares de modernidade insuflados pelo governo Juscelino Kubitschek. A construção de Brasília e o surgimento de movimentos culturais (Bossa Nova e Cinema Novo, entre outros) davam a impressão de que outro Brasil começava a nascer. Nessa nova atmosfera, surgia também um novo brasileiro: mais maduro e sofisticado, ele se interessava por política, livros, cinema, música e viagens. Simão e Sergio Waissman, sócios na editora Delta-Larousse, identificavam-se com esse público e assumiram a missão de criar um veículo que refletisse os gostos e hábitos desse cidadão, que tinha, além de bom poder aquisitivo, capacidade para valorizar textos inteligentes e excelência gráfica.

 

O projeto surgiu em 1958, quando o jornalista Nahum Sirotsky, que era diretor da revista Manchete, foi convidado para criar uma publicação diferente, capaz de saciar esse homem contemporâneo. Sirotsky atraiu para a redação colaboradores de peso, como Clarice Lispector, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Nelson Rodrigues, Glauber Rocha, Darcy Ribeiro, Zuenir Ventura, Carlos Drummond de Andrade, João Guimarães Rosa, Vinicius de Moraes, Luiz Carlos Maciel, Ferreira Gullar, Otto Lara Resende, entre tantos outros. Também lançou talentos, entre eles, Paulo Francis, Jaguar, Glauco Rodrigues, Luiz Lobo, Ivan Lessa e Carlos Scliar. Assim nasceu a revista Senhor, que acabou por mudar (no bom sentido) a maneira de se fazer jornalismo.

Quase meio século desde a sua derradeira edição, Senhor está de volta em dois livros: Uma Senhora Revista e O Melhor da Senhor, concebidos por Maria Amélia Mello (jornalista e escritora, autora Às Oito, em Ponto, coletânea de contos ganhadora do Prêmio Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras, e organizados por Ruy Castro (também jornalista e escritor, autor da biografia O Anjo Pornográfico, sobre Nelson Rodrigues, e Chega de Saudade, sobre a Bossa Nova, só para citar alguns). Nos dois livros da Senhor, os autores selecionaram os melhores momentos dos cinco anos de existência da revista, que ficou para a história do jornalismo, valorizando a criatividade, o bom texto, a ousadia gráfica e contando com um time de bambas.

 

Uma Senhora Revista dedica-se a contar a história da Senhor por meio daqueles que a fizeram. Os artigos são escritos pelos principais protagonistas da aventura editorial, em textos assinados por Nahum Sirotsky, Paulo Francis, Luiz Lobo e Ivan Lessa. Assuntos mais sérios, como economia e política, ficavam a cargo da dupla Sirotsky e Paulo Francis, que também era responsável pela crítica cultural e literária e por selecionar os contos e novelas de autores nacionais e internacionais publicados mensalmente. O design gráfico, que acabou por angariar prêmios internacionais, vinha de Carlos Scliar. Os cartuns de Jaguar e textos de Luiz Lobo imprimiam a dose de humor que se tornaria referência em publicações futuras.

 

Apesar de ter sido uma revista destinada ao público masculino, o primeiro editorial foi dirigido às leitoras. Iniciava-se com um respeitoso “Minhas Senhoras” e dizia que, apesar de Senhor ser uma revista masculina, ela era direcionada às mulheres, uma vez que eram elas, na verdade, quem compravam ou condenavam uma revista à morte. Em seu auge, devido ao número de leitores que se ofereciam para publicar na revista, partiu de Jaguar e Lessa o anúncio: “O leitor também pode colaborar com a Senhor, comece escrevendo aqui”. O “aqui” guiava o leitor para um cupom de aquisição de uma assinatura.

 

A seleção de reportagens, artigos, contos, reproduções de capas, anúncios e ensaios fotográficos realizada por Ruy Castro para O Melhor da Senhor faz desse volume a cereja do bolo. Estão no livro as beldades, devidamente vestidas, mas nem por isso desprovidas do poder da sedução, que faziam a cabeça de marmanjos, como Odete Lara, que aparece linda e deliciosamente esparramada na beira da piscina.

Há ainda Otto Maria Carpeaux, narrando seus encontros com Franz Kafka. Em seu único diálogo com o autor de O Processo, Carpeaux não teria compreendido a pronúncia do nome e a conversa teria transcorrido da seguinte forma: “KAUKA”. “Como é o nome?” “KAUKA!” “Muito prazer.” O leitor vai se deleitar ainda com o brilhante artigo de Armando Nogueira em um clássico da crônica esportiva, intitulado Didi: o Homem que Passa. Vai também aproveitar Glauber Rocha discorrendo sobre as ousadias cinematográficas de Luis Buñuel.

 

A literatura era um dos principais focos da Senhor – por isso, a grande quantidade de escritores brasileiros que colaboraram na revista. Mas também foram traduzidos, exclusivamente para a Senhor, textos de Kafka, Truman Capote, Dorothy Parker e outros – alguns desses autores foram apresentados pela primeira vez ao leitor brasileiro pela revista.

 

Senhor teve vida curta, durou apenas cinco anos, entre 1959 e 1964 – a revista não sobreviveu para ver o período sombrio representado pelo golpe militar, ocorrido dois meses depois de seu último suspiro. Muitos de seus colaboradores estiveram por traz de títulos como O Pasquim. É possível detectar sua influência no melhor que a imprensa escrita brasileira produziu depois. Os lançamentos em torno da Senhor, pela Imprensa Oficial, é, sem dúvida, certeza de leitura prazerosa e deleite visual, graças ao belo acabamento gráfico e ao legado histórico da publicação, agora reunido em dois lindos volumes.

 

Com a palavra, Luiz Gama – Livro

Luiz Gama Capa

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Orfeu negro

Nascido livre e levado à escravidão aos dez anos de idade, o lendário Luiz Gama encarna como poucos os ideais libertários do Brasil de fins do século XIX. Pouco citado em nossos livros, o “Vate Negro” retoma seu lugar na história em lançamentos que resgatam sua trajetória ímpar e obra que funde literatura, política e jornalismo.

Por César Alves

 

Os nomes dos que tem na luta pela liberdade a marca de sua existência deveriam figurar com destaque na história de qualquer nação soberana. Sendo assim é de estranhar que Luiz Gama seja tão pouco citado em nossos livros. Dono de uma biografia intensa e trajetória dedicada à defesa da igualdade de direitos e ao livre pensamento, o poeta, jornalista e advogado – autodidata em todas as áreas – merece figurar entre os principais artífices na construção de um novo Brasil. Multifacetado e tendo no abolicionismo e na derrubada da monarquia suas principais bandeiras, sua atuação no combate às arbitrariedades dos que detinham o poder político e financeiro no século XIX foi marcante nos mais diversos palcos. Vai da literatura, com a publicação de seu único livro, Primeiras trovas burlescas de Getulino; passa pela luta por uma imprensa livre, através de artigos corajosos nas redações de jornais oficiais e também de periódicos independentes; chegando à ação direta nos tribunais, como o advogado de argumentos imbatíveis pelos direitos dos humildes e injustiçados. Antes tarde do que nunca, o resgate de sua importância histórica tem ganhado forma nos últimos anos através de lançamentos como a reedição de Primeiras Trovas Burlescas pela Martins Fontes, uma série de ensaios e novas biografias. Passados 180 anos de seu nascimento, a Imprensa Oficial presta justa homenagem neste Com a palavra, Luiz Gama – poemas, artigos, cartas e máximas.

Filho de Luiza Mahin, uma quitandeira africana livre de Costa Mina, com um fidalgo de nome nunca revelado – sabe-se que fazia parte de uma tradicional família baiana de origem portuguesa –, o Vate Negro, como ficaria conhecido no futuro, nasceu em Salvador no ano de 1830. Embora tenha vindo ao mundo como homem livre, Luiz Gonzaga Pinto da Gama conheceu a escravidão aos dez anos de idade quando foi vendido pelo próprio pai a um mercador de escravos. Da Bahia o garoto é levado ao Rio de Janeiro e depois Santos, de onde segue a pé até Campinas para ser vendido. Na época, escravos de origem baiana tinham fama de rebeldes e, por este motivo, Luiz Gama não foi comprado, ficando o mercador como seu senhor. É como cativo que chega à capital de São Paulo, principal cenário de sua trajetória sem precedentes.

Provando a máxima de que educação confere liberdade, é graças a um estudante de direito que aluga um dos quartos na casa de seu senhor que Luiz Gama é alfabetizado aos dezessete anos. Ato corajoso, tendo em vista que na época ensinar um negro tinha conotação de crime, o jovem torna-se amigo do garoto escravo e também lhe fornece as primeiras noções de direito. De forma impressionante, pouco tempo depois, Gama reúne documentos que provam seu nascimento como homem livre e consegue alforria defendendo-se por conta própria e antecipando seu futuro como grande advogado. Aqui é preciso tomar cuidado. Foi justamente sua atuação marcante no universo do direito e sua fama como “o advogado dos escravos”, que acabaram por soterrar a imagem do homem de múltiplos talentos que realmente foi.

Já livre, aos dezoito anos ingressa na guarda municipal, onde trava contato com uma das maiores autoridades da São Paulo de então: Conselheiro Furtado de quem se torna protegido e com quem anos mais tarde romperia suas relações publicamente, com direito a troca de rusgas na imprensa. Sua carreira militar termina seis anos depois, após cumprir pena de 39 dias por insubordinação. Mais tarde escreveria: “desde que me fiz soldado, comecei a ser homem; porque até os dez anos fui criança; dos dez aos dezoito anos fui soldado”.

Nomeado amanuense da Secretaria de Polícia de São Paulo, Gama começa a ter contato com os problemas dos mais humildes que por lá apareciam ávidos por justiça, quase um privilégio das elites. É onde também passa a aperfeiçoar seus conhecimentos na área jurídica. A época marca sua aproximação de personalidades republicanas e a formação de alianças com nomes emblemáticos que teriam importância para seu futuro e também do país, como o poeta e professor de direito José Bonifácio, o Moço. Membro da maçonaria, associado à Loja América, um dos núcleos do antimonarquismo paulistano, em pouco tempo Luiz Gama escreveu seu nome entre os principais intelectuais do período. Personagem símbolo da luta abolicionista, como rábula – profissional autorizado a exercer advocacia sem curso superior, desde que comprovado profundo conhecimento na área – passou a defender de forma gratuita casos de escravos e parte da população menos assistida pelo Estado, também fornecendo aconselhamentos e participando pessoalmente da libertação – sempre através de meios legais – de trabalhadores escravizados. Suas conquistas representam feito jamais igualado na luta contra escravidão em todo o mundo. Há registros de que teria sido o responsável direto pela libertação de mais de quinhentos escravos. Extra-oficialmente, há quem diga que o número se aproxime de mil.

Contrariando os que defendiam idéias pseudo científicas, muito em voga na época, de que o conhecimento e a capacidade intelectual para desenvolvê-lo e produzir coisas belas eram uma questão de raça, privilégio dos escolhidos e de pele alva, pouco mais de dez anos separam a alfabetização do menino escravo de sua ascensão como o brilhante intelectual que se tornou. Apenas doze anos se passaram até que Luiz Gama publicasse seu primeiro e único livro de poesia, ganhasse o respeito como autor de artigos invejáveis na imprensa e o orador, autor de discursos históricos na defesa de suas idéias. É ai que se encontra um dos principais méritos deste lançamento. Dividido em capítulos como Poemas, Artigos, Cartas e Máximas, o livro apresenta ao leitor as diversas faces de um pensador cuja obra singular une literatura, jornalismo e política.

Lírica de Carapinha

Publicado em 1859, Primeiras Trovas Burlescas de Getulino teve apenas duas edições na época, sendo praticamente empurrado para o esquecimento nas décadas seguintes. O que poucos perceberam é que o surgimento do poeta Luiz Gama representava um marco em nossa literatura. Sem mencionar o valor incontestável de seu lirismo, a obra impressiona por sua ousadia e importância histórica. Não bastando o fato de que pela primeira vez um autor negro tinha sua obra publicada, Gama vai além. Apropria-se das referências dos poetas brasileiros e europeus que o influenciaram, mas assume sua raça e posiciona-se como uma nova voz já desde o título do livro. Embora o autor assine com seu nome de batismo, as trovas são creditadas a Getulino, pseudônimo retirado de uma tribo guerreira nômade oriunda da África, os Getulos. O poeta se apresenta como o Orfeu de Carapinha, tomando de empréstimo a lírica do musicista encantador de deuses e mortais da Grécia mitológica clássica, porém substituindo sua lira por instrumentos de origem africana. Canta pela primeira vez a beleza da mulher negra, declamando que, à alva Vênus dos poetas clássicos prefere “A musa de Guiné, cor de azeviche”.

Embora cante as belezas do espírito como faziam seus contemporâneos, desde os primeiros poemas o Vate Negro mostra sagacidade e domínio da ironia em versos satíricos de forte conteúdo político e social. Esta, aliás, seria uma de suas marcas em poemas publicados mais tarde na imprensa paulistana. Sua pena não dá trégua aos poderosos, mas sobra também para os “mulatos falsários”, como ele definia mestiços que renegavam sua ascendência africana. Os versos de “Quem sou Eu?”, também conhecido como “Bodarrada” – chamavam Bodes os mestiços de pele mais escura – dizem: “Se negro sou, ou sou Bode./Pouco importa./O que isto pode?”. Também ataca o preconceito dominante de parte das elites intelectuais: “Ciências e letras/Não são para ti/pretinho da costa/não é gente aqui”. E, se os versos: “No meu cantinho./Encolhidinho./Mansinho e quedo./Banindo o medo (…)/O que estou vendo./Vou descrevendo” podem dar a falsa impressão de uma humildade cômoda, em outros salta feito leão contra a hipocrisia dos poderosos : “Se a justiça, por ter olhos vendados,/É vendida, por certos magistrados,/Que o pudor aferrando na gaveta,/Sustentam – que o Direito é pura peta;/E se os altos poderes sociais,/Toleram estas cenas imorais,/Se não mente o rifão, já mui sabido:/ “Ladrão que muito furta é protegido”/É que o sábio, no Brasil, só quer lambança,/Onde possa empantufar a larga pança!”. O lançamento traz uma coletânea que inclui tanto textos extraídos de Primeiras Trovas Burlescas, como outros publicados apenas em jornais da época.

O jornalismo de combate de Barrabrás

Naqueles tempos em que jornalismo e literatura se confundiam, não é de se estranhar que alguém com tanto a dizer como Luiz Gama estendesse seu campo de atuação às redações. Como jornalista, Luiz Gama também fez história, podendo ser considerado um dos precursores de nossa imprensa independente ou alternativa. Em 1864, uniu-se ao cartunista Angelo Agostini para fundar o semanário de humor, Diabo Coxo. Embora a publicação tenha durado pouco mais de um ano, o periódico foi o primeiro jornal ilustrado da cidade de São Paulo e marca a descoberta da imprensa como principal canal difusor de suas idéias. Tendo no jornalismo atividade oficial a partir daí, Luiz Gama participaria da criação e edição de outros títulos não menos notórios, como Cabrião, O Polichinelo e O Radical Paulista – o último, ao lado de Rui Barbosa –, entre outros.

Talvez um dos maiores exemplos da cordialidade hipócrita de nosso racismo, Gama foi acusado por seus detratores de negro com pretensões literárias frustradas e até “agente da Internacional”. Durante muito tempo, a indignação e virulência de seu texto foram rotuladas como um rancor enraizado contra a parcela de pele branca da sociedade. Seu discurso, no entanto, não é pautado pela distinção racial e seus principais alvos eram as instituições dominantes no Brasil da segunda metade do século XIX: a monarquia e a igreja.

Vítima de complicações causadas pelo diabetes, o autor, que gostava de pseudônimos como Barrabrás – em referência ao bairro do Brás, onde morava –, com o qual assinou alguns de seus artigos mais virulentos contra as elites, faleceu jovem, aos 52 anos de idade, no auge de sua popularidade como republicano e fervoroso abolicionista. O impacto de sua morte movimentaria a capital paulistana. Seu velório teria atingindo proporções inéditas até então, sendo acompanhado por mais de três mil pessoas. Conta-se que em meio à cerimônia fúnebre o féretro teria sido “tomado” das mãos de seus companheiros republicanos pelos ex-escravos e demais populares, que o tinham como protetor, e conduzido nos braços do povo até o Cemitério da Consolação onde está enterrado. O evento ainda seria assunto na mídia nos meses que se seguiram em artigos e homenagens assinadas por notáveis como Rangel Pestana e Raul Pompéia, entre outros. Além dos poemas e artigos do autor já citados, Com a palavra, Luiz Gama também traz tais homenagens e se completa com suas máximas, trechos de sua correspondência e ilustrações, apresentando um rico panorama do pensamento de um personagem sem igual em nossa história.

Serviço: Com a palavra, Luiz Gama. Organizadora: Ligia Fonseca Ferreira. Editora: Imprensa Oficial. 306 páginas.

 

Box: Sangue indomável

Pesquisando de forma aprofundada as origens de Luiz Gama é quase impossível não pensar em predestinação. Descrita como uma negra bonita, de corpo frágil e personalidade forte, sua mãe, Luiza Mahin, teria participado de diversos levantes e rebeliões pela emancipação negra no Brasil escravocrata do século XIX. Embora as informações a seu respeito sejam escassas e desencontradas, é certo que teve papel importante em pelo menos uma das insurreições mais significativas do período: a Revolta dos Malês.

Organizado por um grupo de cerca de 600 negros muçulmanos, o movimento pretendia acabar com a imposição dos ritos católicos a que eram submetidos, libertar os escravos muçulmanos e instituir em Salvador um governo teocrático baseado no Islam. Levada a cabo no dia 25 de janeiro de 1835, a revolta teve motivação religiosa, com inspiração nas jihads – guerras santas – e nasceu destinada ao fracasso. Entre os principais motivos, estava o fato de não contar com o apoio de boa parte da população negra, a maioria católica e de outras religiões, que temia ser alvo de perseguição uma vez instaurado o governo muçulmano. Além do mais, seu núcleo fora infiltrado por informantes que, à traição, impediram o elemento surpresa, essencial para o sucesso de qualquer ação revolucionária. Avisado com antecedência, o governo não teve dificuldades em conter a rebelião. Seus líderes foram presos e executados. Outros foram deportados.

Luiza Mahin teria deixado seu filho aos cuidados do pai e fugido para o Rio de Janeiro. Seu destino a partir daí é uma incógnita. Conta-se que teria participado de outras revoltas no Rio. Lá teria sido presa e deportada para Angola, mas, não havendo documentos que comprovem tal informação, é também possível que tenha sido executada. Embora também não existam provas a respeito, certos autores defendem que Mahin teria conseguido fugir e encontrado refúgio no Maranhão. Tal teoria a coloca, inclusive, como uma das peças fundamentais para o desenvolvimento e popularização do Tambor de Crioula, dança típica de origem africana praticada ainda hoje por afro-descendentes maranhenses. Depois de adulto, Luiz Gama lançou-se em diversas campanhas para investigar pistas de seu paradeiro. Todas infrutíferas.

Considerada uma heroína e exemplo de mulher guerreira em diversas comunidades baianas, Luiza Mahin pouco conviveu com o filho. Seu papel sob a biografia de Luiz Gama, no entanto, possui simbologia marcante e impossível de se ignorar. Herdeiro do espírito indomável da mãe, o Vate Negro parece ter trazido nas veias sua inclinação à liberdade e à insubmissão.

Sobre ela, o filho escreveu: “Sou filho natural de negra africana, livre, da nação nagô, de nome Luísa Mahin, pagã, que sempre recusou o batismo e a doutrina cristã. Minha mãe era baixa, magra, bonita, a cor de um preto retinto sem lustro, os dentes eram alvíssimos, como a neve. Altiva, generosa, sofrida e vingativa. Era quitandeira e laboriosa.

 

20 Poemas para ler no bonde – Oliverio Girondo

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A Poesia Passeia de Bonde

 

20 Poemas para Ler no Bonde, livro de estréia de Olivério Girondo, é finalmente publicado no Brasil, em edição bilíngüe e ilustrado com fotos de Horacio Copolla.

Por César Alves

 

O poeta tem fome de inspiração, seus olhos devoram a realidade que mastiga à dentadas, engolindo-a num bolo digestivo de imaginário, que digere em criatividade e regurgita em verso e prosa. O viajante tem fome de estrada, seus pés devoram milhas percorridas, engolem paisagens, digerem experiências e regurgita uma mistura da necessidade irresistível de trilhar novos caminhos com a saudade de lugares e pessoas para trás deixados que, de tão intensa, só perde para o imenso desejo de seguir viagem.

Com o perdão do filosofar barato que introduz o texto, caro leitor, é como um amálgama do artista com o viajante que os 20 Poemas Para Ler no Bonde, de Olivério Girondo, nos encantam.

Lançado pela Editora 34, a tradução de Fabrício Corsaletti e Samuel Titan Jr corrige uma das muitas lacunas existentes nas prateleiras de nossas bibliotecas e livrarias de edições nacionais de títulos e autores importantes da literatura produzida na América Latina. Em se tratando de expoentes das vanguardas, então – como é o caso de Olivério Girondo –, são tantos buracos que beiram se tornar um imenso vácuo.

Expoente máximo do Modernismo argentino, Olivério Girondo é também considerado por especialistas como aquele, dentre os poetas das vanguardas latino-americanas, que melhor dialoga com a produção brasileira, principalmente, Oswald e Mário de Andrade.

Originário de uma família abastada de Buenos Aires, muito cedo o autor se deu conta de que as facilidades financeiras que seu berço lhe garantia não poderiam ser desperdiçadas com uma existência fútil, esnobe e cômoda. Sendo assim, ainda muito jovem decidiu tirar proveito de sua condição para abraçar a vida como experiência e saciar-se do banquete das descobertas.

Vivendo de forma quase nômade entre a Argentina e a Europa, apesar de seu espírito boêmio, Girondo dedicou-se de forma apaixonada aos estudos, lendo tudo o que estivesse ao alcance, com especial devoção à literatura e artes em geral. Aqueles eram os anos convulsivos de horror, quando as nações do mundo entravam no primeiro dos dois conflitos mundiais que modelariam a história do século que se iniciava; espanto e fascínio, diante da promessa de possibilidades que as novas invenções e descobertas científicas e tecnológicas prenunciavam; e pulsão criativa, experimental e provocativa, conforme apontavam as vanguardas artísticas européias. Um século novo, exige uma arte também nova, era o que diziam ou pareciam dizer.

Ora, para um garoto com aspirações artísticas e inclinado ao inconformismo, deve ter sido como aquele senhor aposentado, ex-hippie, que hoje não confia em ninguém com menos de sessenta, quando ouviu ainda adolescente alguém pregar: “Não confie em ninguém com mais de trinta!” Ou o garoto suburbano que, em meados da década de 1970, ouviu Never Mind The Bollocks. Here is The Sex Pistols e concluiu: “Eu também posso fazer isso!”

Citações pop e anedotas geracionais à parte, sem medo do afogamento o jovem poeta então saltou de seu trampolim para mergulhar profundamente nas águas do novo, onde a vida artística realmente estava fluindo, num maremoto de ousadia promovido pelas ondas tormentosas dos dada, futuristas, cubistas e surrealistas.

Os 20 Poemas Para Ler no Bonde apresentam um poeta em sintonia com seu tempo e, embora ainda em formação, completamente adaptado às novas propostas criativas de sua época. Mas também, oferecem o olhar do andarilho experiente e, ainda assim, fascinado com a beleza das coisas mais simples, atos e fatos corriqueiros da vida cotidiana, o gigantesco multiverso guardado no micro, imperceptível aos que só tem olhos para o macro; mas claro como o dia para aqueles dotados da capacidade de enxergar além da física dos corpos e das estruturas do concreto.

Todos escritos durante suas andanças por cidades como Buenos Aires, Paris, Veneza e Rio de Janeiro, cada poema convida a vivenciar com o viajante as experiências de sua passagem, enquanto o poeta desperta os sentidos, com saboroso lirismo inspirado no caminhar das mulheres, o olhar de desafio da madura e o rosar das bochechas da virgem inocente, em resposta ao mesmo flerte; a cacofonia das conversas desconexas entre amigos ébrios; a máquina motorizada que segue em descompasso e, mesmo com o ronco de sua artificialidade, não quebra a naturalidade com que transcorrem os dramas pessoais dos que passam, vão ou ficam e dos que bebem, conversam, namoram; assim como a cidade que, aos pouco, toda a natureza cobre, em harmônica desarmonia acelerada.

Publicado originalmente na França em 1922, o livro só saiu na Argentina em 1925. Um ano antes, Girondo retornou à Buenos Aires, onde ajudou a agitar o modernismo local, como colaborador do órgão difusor das vanguardas hispano-americanas, a revista Martín Fierro (1924-1927) e consagrou-se como poeta e autor de diversos livros, com destaque para Calcomanias (1925), Espantapájaros (1932) e Persuasón de los dias (1942), que merecem artigos próprios para discorrer a respeito.

Além de bilíngüe e ilustrada, a edição brasileira de 20 Poemas para Ler no Bonde conta com reproduções de trabalhos de Horacio Coppola, figura central da fotografia latino-americana, um dos fundadores do Cineclube de Buenos Aires, em 1920, que, em 1932, durante viagem à Alemanha, travou contato com a Bauhaus e a fotógrafa Grete Stern, com quem veio a se casar. Em 1935, o casal promoveu a primeira exposição de fotografia moderna na Argentina.

Antes tarde do que nunca, a feliz chegada do livro de estréia do poeta argentino, como primeiro título dele publicado no Brasil, talvez sinalize como ponto de partida para uma possível reedição de sua obra, para o deleite dos leitores brasileiros.

Para ler no bonde, no ônibus, no metrô, no taxi ou no avião.

 

Trecho:

“A cidade imita um papelão uma cidade de pórfiro. Caravanas de montanhas acampam nos arredores. O Pão de Açúcar basta para adoçar a baía inteira o Pão de Açúcar e seu teleférico que há de perder o equilíbrio por não usar uma sombrinha de papel (…)”.

 

 

Serviço: 20 Poemas Para Ler no Bonde. Autor: Olivério Girondo. Tradução: Fabrício Corsaletti e Samuel Titan Jr. Editora 34. 112 páginas. Fotografias de Horácio Coppola.

Esquina Cultural

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Esquina Cultural

 

Qualquer um que caminhava pelas ruas do Centro de São Paulo em meados dos anos 80 e 90 e tivesse o hábito de garimpar livros, deve se lembrar da imensa oferta de sebos que ofereciam títulos bons e baratos, desde que o cliente estivesse disposto a se dedicar ao garimpo.

Com o passar dos anos, o Centro se tornou a verdadeira Meca para os amantes de livros e cultores do alfarrábio, o que acabou por tornar o mercado de sebos e livros usados mais um grande negócio do que uma paixão comercial por venda e troca livresca, chegando ao ponto de alguns sebos terem preços tão altos quanto os das livrarias oficiais.

Para os saudosos daqueles tempos, eis que surge uma luz no final do túnel. Localizado nas proximidades da Praça da Sé, mais precisamente na rua Quintino Bocaiúva, o Sebo Esquina Cultural surge com uma proposta Old School de comercializar e privilegiar o garimpo livresco. Suas prateleiras estão carregadas com um vasto acervo de livros, LPs, CDs e revistas à preços acessíveis – à partir de R$ 3,00 e promoções como três livros a 5 ou 10 reais.

E não se tratam de títulos pouco procurados, mas obras clássicas de autores como Oscar Wilde, Guimarães Rosa, Albert Camus, Jorge Amado, J. J. Veiga, entre outros, e títulos nas áreas de história, filosófica, arte, teatro, musica e demais seguimentos à partir de 5 reais; além de títulos da Coleção Primeiros Passos a 12 reais, coleção Os Pensadores por 15 reais e Tudo é História por 10 reais cada.

Vale à pena uma passada por lá…

 

Serviço:

Sebo Esquina Cultural

Rua Quintino Bocaiuva, 309 – Sé – São Paulo

Telefone: (11) 3101-18811 e-mail: [email protected]

 

 

 

Arthur Rimbaud – Iluminuras

 

Rimbaud

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ODesregramento dos Sentidos de Rimbaud

Depois de quase duas décadas fora de catálogo, obra testamento de um dos maiores poetas franceses volta às livrarias brasileiras.

Por César Alves

 

Dentre as personalidades inaugurais da poesia moderna, Arthur Rimbaud é o tipo de artista que, embora possa ser considerado o primeiro de muitos, possui obra e biografia únicas. Como o próprio Rimbaud previra – arroubos provocativos de arrogância juvenil, para alguns; momento visionário e exposição corajosa de alguém capaz de enxergar adiante, típica do artista seguro de seu talento, originalidade e, portanto, da longevidade de sua obra, para muitos – sua poesia, mais que divisora de águas, fez-se um marco e abriu as portas para a invasão bárbara, promovida por outros, dotados de seu mesmo espírito anárquico e experimental, que o seguiram e transformaram os conceitos estéticos e padrões artísticos, até então, estabelecidos.

Direta ou indiretamente, Rimbaud influenciou quase tudo o que aconteceu de relevante na historia da cultura e arte ocidental posterior a ele. Dos Surrealistas aos Beatniks, passando pelas vanguardas artísticas e movimentos modernistas europeus e americanos; da Contracultura aos patet… – ooops! – “poetas” do rock brasileiro. Tudo no curto período de sua vida que vai de seus 17 aos 21 anos de idade, tornando quase impossível evitar o clichê comumente associado a seu nome, Infant Terrible.

Uma trajetória marcada por criatividade intensa, ousadia – tanto poética, quanto comportamental – e boemia, que, para muitos, encontra em Iluminuras (Gravuras Coloridas) seu testamento poético. O livro, cuja tradução brasileira, feita pelos poetas Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Mendonça, havia desaparecido das livrarias ha quase duas décadas, acaba de ser relançado, em edição revista da Editora Iluminuras (mesma casa editorial das edições anteriores).

Escrito entre 1873 e 1875, durante suas passagens por Londres, Paris, Alemanha, Holanda e Dinamarca, em meio aos momentos de paixão e fúria que marcaram seu conturbado relacionamento com o poeta Paul Verlaine e pouco tempo antes de seu inexplicável rompimento com a literatura, Iluminuras, ao lado de seu livro anterior Uma Temporada no Inferno – título que o precede, traduzido no Brasil por Ledo Ivo

–, se inscreve entre as grandes e fundamentais obras da poesia moderna.

Considerar Iluminuras como obra-testamento da poesia de Rimbaud não é mera característica criada por especialistas e críticos para catalogar a importância de um título específico, dentro da obra de determinado artista.

Se o ímpeto experimental e a proposta de promover uma rebelião contra as formas estéticas e dogmas temáticos e estilísticos que pontuavam a produção de sua época, já estavam visíveis em sua obra desde que o autor de O Barco Bêbado chamou a atenção do Panteão Literário francês, sob as bênçãos de Victor Hugo para aquele jovem poeta de 17 anos, é aqui que sua proposta de uma “alquimia verbal” se confirma. Aqui, “o poeta se faz vidente por um longo, imenso e irracional desregramento de todos os sentidos”, em instantâneos caleidoscópicos de sonhos, alegorias e experimentos líricos, harmônicos e textuais.

Como este que vos escreve não passa de um mero admirador do gênero, está longe de ser um especialista ou crítico de poesia e, principalmente, para evitar exageros verborrágicos e frases pretensiosas, como as que fecham o parágrafo anterior, paro por aqui com minha análise da obra e sugiro aos colegas a leitura obrigatória do livro.

Bilíngue, a nova edição de Iluminuras traz também um ensaio crítico, assinado pelos tradutores.

Nascido em Charleville, em 1854, Jean-Nicolas Arthur Rimbaud escreveu cerca de vinte livros de poesia antes dos 21 anos, até abandonar de vez o ofício da escrita. Depois disso, empreendeu uma série de jornadas clandestinas, chegando a se alistar no Exército Colonial Holandês, simplesmente para poder entrar livremente em Java (Indonésia). Tais viagens o levaram ao continente africano, onde atuou como traficante de armas. Última “profissão” que exerceu, antes de sua morte, aos 37 anos, quando retornou a Paris, depois de uma gangrena que o levou a amputar uma das pernas.

 

Serviço:

Título: Iluminuras

Tradução, notas e ensaio: Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça

Editora: Iluminuras

192 páginas