Sebo

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Guia de Sebos

O nome “sebo” vem exatamente do que o leitor pode estar pensando. Substância gordurosa, e está diretamente ligada à resina utilizada na fabricação velas. Única forma de conseguir luminosidade para leitura, à noite, antes da invenção da Luz Elétrica.

Não havia eletricidade

Imagine-se num período em que não havia luz elétrica mas você, ávido leitor precisava da sua leitura até altas horas. Então você acendia uma vela, mas elas não eram feita da atual parafina e sim de gordura de animais. Um exemplo é a feita de baleia. A atenção à leitura permitia sujar os livros, esses blocos de papel encadernados ficavam ensebados. Essa é uma possibilidade já que os sebos são livrarias que vendem livros de segunda mão.

Outras possibilidades

Outras possibilidades também plausíveis:

Um livro tão lido e passado de mão e mão.

Os anos o deixa com várias marcas de mãos do que o manuseou, acabou ensebado e foi parar numa loja cheia de livros.

Mas também tem os muitos manuseados por diversas mãos, o Sebo, então ficou sendo o nome desse tipo de livraria .

Outras línguas

Em espanhol se utiliza o nome Librero de Viejo e em inglês, Used bookstore. O princípio é o mesmo e o nome é comum apenas no Brasil. Em Portugal se utiliza Alfarrábio, isto é livros de antiquários. Bem, o Brasil possuí uma imensa população, infelizmente, ainda muito pouco leitora. E os sebos desenvolvem um importante papel na democratização do acesso ao livro. Eles não são apenas lugares de curiosos, colecionadores e pesquisadores. Porque uma parte leitora da população não tem acesso a uma renda que permita comprar um livro novo. Mas estes podem recorrer a ele como meio de leitura.

O sebo na expansão da cultura

Ele preenche uma lacuna de nossos espaços culturais porque oferecer livros a um preço mais módico e também guarda a história da circulação do livro e de seus frequentadores. O sebo, no Brasil, é muito mais que uma loja de produtos, é antes de tudo um centro cultural disponível para comprar e para vender livros. Uma visita, mesma que rápida, lhe colocará em contato com um mundo fascinante, impossível de encontrar em uma livraria ou mesmo numa biblioteca, sua diversidade bibliográfica nos conduz aos labirintos de inúmeras histórias ocultas.

É um achado afetivo também, porque o objeto do livro continua a servir mesmo depois de muito ser usado. Só que o mais importante é, há mensagens transmitidas por eles que não envelhecem, outras estão sempre em renovação esperando de um descobridor. Há muita histórias por trás de tudo, aos poucos contaremos,não se pode dar tudo que se tem de uma vez, é preciso destilar aos poucos esse álcool em que se pesa os livros.

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Quadrinhos de Super-heróis

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Aurora dos Super-heróis

 

Dos clássicos publicados pela Ebal, passando pelos famosos formatinhos da Abril, até os mais recentes, publicados pela Panini e Novo Século, HQs diversas coleções dos heróis Marvel e DC Comics podem ser encontradas nos sebos de São Paulo.

 

 

Desde que ganharam os céus, em vôos rasantes, e as ruas, combatendo o crime, vestidos de colants, no início do século vinte, os super-heróis nunca saíram de moda e, ao que as grandes bilheterias do cinema contemporâneo mostram, estão longe de sair.

No Brasil, a febre chegou ainda tímida, publicada em tirinhas de jornais, em meados da década de 1950, mas logo ganharam títulos próprios, estrelado por Batman, Superman, Capitão América, Homem-aranha e etc, graças às editoras Ebal e RGE.

Mas foi graças à editora Abril e seus famosos “formatinhos”, com títulos como Heróis da TV e Superaventuras Marvel, além dos títulos próprios, estrelados pelos mesmos heróis citados no parágrafo anterior, das mais famosas editoras, Marvel e DC Comics, que a febre começou a ganhar corpo, chegando aos dias de hoje, com direito a eventos anuais como a Comic Con.

Um passeio pelos sebos de São Paulo revela que alguns daqueles títulos antológicos, alguns fora de catálogo, e números que faltam a sua coleção, podem ser descobertos, com um pouco de pesquisa. Coleções completas, inclusive.

Se falta algum número a sua coleção ou se está em busca daquela série que não possui, o Centro de São Paulo é a melhor sugestão de local por onde começar a sua busca. Aos fãs dos combatentes do crime, não faltam opções.

 

Serviço:

Sebo Esquina Cultural

Rua Quintino Bocaiuva, 309 – Sé – São Paulo

Telefone: (11) 3101-1811 e-mail: [email protected]

 

 

 

 

 

 

 

 

Guido Crepax – A História de “O”

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A erótica “O”

 

Chega às livrarias adaptação em quadrinhos de Guido Crepax para o clássico da literatura erótica de Pauline Réage.

Por César Alves

 

Em meio à atual febre de tramas eróticas nas livrarias de todo o mundo, fenômeno ressuscitado pela série de livros Cinquenta Tons de Cinza, de E.L. James, é bom lembrar que sexo e arte sempre se deitaram na mesma cama. Seus segredos, no entanto, podem ter tido representação gráfica muito antes do aparecimento da imprensa. Papiro de Turim, documento descoberto em 1822, mostra desenhos feitos pelos egípcios de suas atividades sexuais, talvez seja a prova de que o gosto pelo erotismo vem muito antes de Gutenberg criar a primeira impressora no século 14 e tornar, algum tempo depois, a literatura acessível e os “livros proibidos” virarem tão populares quanto a Bíblia – muitos estudiosos consideram o documento egípcio “a primeira revista erótica da história”.

O italiano Guido Crepax, artista gráfico e autor das mais originais histórias em quadrinhos, entendeu o recado e se tornou mestre, sobretudo com as aventuras de sua personagem Valentina, criada em 1965 para a revista Linus e caracterizada por uma série que envolve conteúdo erótico e, diga-se, artístico. Também por isso, ele é considerado o responsável por elevar os quadrinhos ao status de arte. Agora, sua obra começa a retornar às livrarias brasileiras, mais uma vez pela L&PM Editores – que lançou vários livros seus na década de 1980. O primeiro relançamento é o clássico A História de “O”, uma das poucas obras do autor que, contraditoriamente, não traz Valentina como protagonista. A editora promete ainda relançar outros títulos, no total de oito volumes programados.

O fato de não ter Valentina não representa exatamente uma decepção aos leitores – nem mesmo para quem adora a fotógrafa que usa botas de couro e espartilho e se tornou ícone da emancipação feminina na década de 1960. A História de “O” é baseada na obra publicada em 1953, na França,  escrita por Pauline Reagé (um dos pseudônimos da escritora e jornalista francesa Anne Célline Desclos, que também assinava Dominic Áury). Na trama, a personagem “O” é uma mulher independente, levada para um castelo por seu amante, René, onde as mulheres eram ensinadas a ser submissas sexualmente aos homens. Apesar de aprender a ser escrava sexual do namorado, “O” é consciente de seu poder sobre os homens e, assim, coloca prazer e submissão lado a lado para alcançar o prazer. Nada mais polêmico e escandaloso.

Ainda que o roteiro não seja de Crepax, a adaptação que ele próprio fez traz todas as características que marcaram a sua obra: erotismo explícito e sem pudores, como no texto original, paixão por desenhar espartilhos e bondages – um deleite para voyeuristas, traço inconfundível e narrativa que exige mais de uma leitura, em que imagem, composição e distribuição dos quadros vão além dos balões de diálogos. A apropriação da trama por Crepax, embora fiel à narrativa original, faz da novela gráfica uma obra diferenciada – é bom ler as duas versões. Essa HQ revela o gosto de Crepax por adaptações literárias, o que fez desde o início de sua carreira. Sua primeira história, aliás, foi uma adaptação de O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson, que desenhou aos 12 anos.

Filho do primeiro violoncelista do Teatro Scala, de Milão, Itália, Crepax nasceu em 1933. Estudou arquitetura pela Universidade de Milão e, ao mesmo tempo, atuou como ilustrador em trabalhos de publicidade. Produziu capas de revistas e livros, pôsteres e ilustrações para capas de LPs – que lhe deu reputação no meio musical. Até decidir-se pelas histórias em quadrinhos, transitou por assuntos variados, mas seu maior mote foi o erotismo.

Valentina, a mais famosa criação, tornou-se ícone cultural do século 20, sendo considerada a primeira mulher emancipada made in Italy. Surgiu como personagem secundária no terceiro episódio das aventuras do herói Neutron e tomou o lugar do protagonista logo nas primeiras aparições. Morto em 2003, além de Valentina, Crepax criou outras heroínas, com destaque para Bianca e Anita, publicadas no Brasil pela L&PM, além de adaptar obras de Edgar Allan Poe e Marquês de Sade, entre outros.

Sobre sua obra, o cineasta francês Alain Resnais disse: “Seguidamente, é necessário tomar uma página de Crepax e ler várias vezes para captar certos detalhes”. Para novos leitores, A História de “O” é um excelente ponto de partida.

 

(Artigo publicado originalmente na revista Brasileiros)

O Melhor da Senhor – Livro

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Memórias da Senhor

 

Dois livros assinados por Ruy Castro e Maria Amélia Mello reúnem poesia, contos, crônicas, ensaios fotográficos e traduções publicados na revista Senhor, que circulou no País entre 1959 e 1964. Trazem ainda bastidores da publicação que marcou uma época e entrou para a história do jornalismo

César Alves

 

No final da década de 1950, o País respirava os ares de modernidade insuflados pelo governo Juscelino Kubitschek. A construção de Brasília e o surgimento de movimentos culturais (Bossa Nova e Cinema Novo, entre outros) davam a impressão de que outro Brasil começava a nascer. Nessa nova atmosfera, surgia também um novo brasileiro: mais maduro e sofisticado, ele se interessava por política, livros, cinema, música e viagens. Simão e Sergio Waissman, sócios na editora Delta-Larousse, identificavam-se com esse público e assumiram a missão de criar um veículo que refletisse os gostos e hábitos desse cidadão, que tinha, além de bom poder aquisitivo, capacidade para valorizar textos inteligentes e excelência gráfica.

 

O projeto surgiu em 1958, quando o jornalista Nahum Sirotsky, que era diretor da revista Manchete, foi convidado para criar uma publicação diferente, capaz de saciar esse homem contemporâneo. Sirotsky atraiu para a redação colaboradores de peso, como Clarice Lispector, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Nelson Rodrigues, Glauber Rocha, Darcy Ribeiro, Zuenir Ventura, Carlos Drummond de Andrade, João Guimarães Rosa, Vinicius de Moraes, Luiz Carlos Maciel, Ferreira Gullar, Otto Lara Resende, entre tantos outros. Também lançou talentos, entre eles, Paulo Francis, Jaguar, Glauco Rodrigues, Luiz Lobo, Ivan Lessa e Carlos Scliar. Assim nasceu a revista Senhor, que acabou por mudar (no bom sentido) a maneira de se fazer jornalismo.

Quase meio século desde a sua derradeira edição, Senhor está de volta em dois livros: Uma Senhora Revista e O Melhor da Senhor, concebidos por Maria Amélia Mello (jornalista e escritora, autora Às Oito, em Ponto, coletânea de contos ganhadora do Prêmio Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras, e organizados por Ruy Castro (também jornalista e escritor, autor da biografia O Anjo Pornográfico, sobre Nelson Rodrigues, e Chega de Saudade, sobre a Bossa Nova, só para citar alguns). Nos dois livros da Senhor, os autores selecionaram os melhores momentos dos cinco anos de existência da revista, que ficou para a história do jornalismo, valorizando a criatividade, o bom texto, a ousadia gráfica e contando com um time de bambas.

 

Uma Senhora Revista dedica-se a contar a história da Senhor por meio daqueles que a fizeram. Os artigos são escritos pelos principais protagonistas da aventura editorial, em textos assinados por Nahum Sirotsky, Paulo Francis, Luiz Lobo e Ivan Lessa. Assuntos mais sérios, como economia e política, ficavam a cargo da dupla Sirotsky e Paulo Francis, que também era responsável pela crítica cultural e literária e por selecionar os contos e novelas de autores nacionais e internacionais publicados mensalmente. O design gráfico, que acabou por angariar prêmios internacionais, vinha de Carlos Scliar. Os cartuns de Jaguar e textos de Luiz Lobo imprimiam a dose de humor que se tornaria referência em publicações futuras.

 

Apesar de ter sido uma revista destinada ao público masculino, o primeiro editorial foi dirigido às leitoras. Iniciava-se com um respeitoso “Minhas Senhoras” e dizia que, apesar de Senhor ser uma revista masculina, ela era direcionada às mulheres, uma vez que eram elas, na verdade, quem compravam ou condenavam uma revista à morte. Em seu auge, devido ao número de leitores que se ofereciam para publicar na revista, partiu de Jaguar e Lessa o anúncio: “O leitor também pode colaborar com a Senhor, comece escrevendo aqui”. O “aqui” guiava o leitor para um cupom de aquisição de uma assinatura.

 

A seleção de reportagens, artigos, contos, reproduções de capas, anúncios e ensaios fotográficos realizada por Ruy Castro para O Melhor da Senhor faz desse volume a cereja do bolo. Estão no livro as beldades, devidamente vestidas, mas nem por isso desprovidas do poder da sedução, que faziam a cabeça de marmanjos, como Odete Lara, que aparece linda e deliciosamente esparramada na beira da piscina.

Há ainda Otto Maria Carpeaux, narrando seus encontros com Franz Kafka. Em seu único diálogo com o autor de O Processo, Carpeaux não teria compreendido a pronúncia do nome e a conversa teria transcorrido da seguinte forma: “KAUKA”. “Como é o nome?” “KAUKA!” “Muito prazer.” O leitor vai se deleitar ainda com o brilhante artigo de Armando Nogueira em um clássico da crônica esportiva, intitulado Didi: o Homem que Passa. Vai também aproveitar Glauber Rocha discorrendo sobre as ousadias cinematográficas de Luis Buñuel.

 

A literatura era um dos principais focos da Senhor – por isso, a grande quantidade de escritores brasileiros que colaboraram na revista. Mas também foram traduzidos, exclusivamente para a Senhor, textos de Kafka, Truman Capote, Dorothy Parker e outros – alguns desses autores foram apresentados pela primeira vez ao leitor brasileiro pela revista.

 

Senhor teve vida curta, durou apenas cinco anos, entre 1959 e 1964 – a revista não sobreviveu para ver o período sombrio representado pelo golpe militar, ocorrido dois meses depois de seu último suspiro. Muitos de seus colaboradores estiveram por traz de títulos como O Pasquim. É possível detectar sua influência no melhor que a imprensa escrita brasileira produziu depois. Os lançamentos em torno da Senhor, pela Imprensa Oficial, é, sem dúvida, certeza de leitura prazerosa e deleite visual, graças ao belo acabamento gráfico e ao legado histórico da publicação, agora reunido em dois lindos volumes.

 

A História da Caricatura no Brasil – Livro

Capa do Livro História da Caricatura Brasileira (1)

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O doce veneno do humor gráfico brasileiro

Série de livros traça o mais completo histórico da caricatura no Brasil.

por César Alves

Autores de clássicos incontestáveis da literatura brasileira, Aluízio Azevedo e Raul Pompéia tinham em comum mais do que a maestria na composição de tramas e diálogos dos livros que os fizeram imortais. Além da palavra, ambos tinham domínio sobre o traço humorístico das caricaturas. Este lado menos conhecido dos criadores de O Cortiço e O Ateneu é uma das curiosidades de História da Caricatura Brasileira, de Luciano Magno (pseudônimo de Lucio Muruci), que acaba de chegar às livrarias pela editora Gala Edições de Arte. Fruto de 25 anos de pesquisa, o livro é apenas o primeiro volume de uma série que pretende contar a história do desenho de humor da caricatura, charge e cartum no Brasil desde os precursores e responsáveis pela consolidação do gênero até nossos chargistas atuais, que, diariamente, conseguem arrancar-nos um sorriso – ainda que amarelo – em meio a tantas notícias de fazer chorar nas páginas de nossos jornais e demais periódicos.

Baseando-se em papiros expostos no Museu de Turim e no Museu Britânico, historiadores costumam reconhecer as origens da caricatura na arte egípcia e também nas imagens de paródias chistosas pintadas nos vasos gregos e nos graffitti de Roma e Pompéia. Se os primórdios da arte remontam a antiguidade e prenúncios do que viria a ser podem ser encontrados em toda a Europa, da Idade Média ao Renascimento, é na Itália do século XVI que ela ganha um nome. Caricatura vem de caricare que significa carregar, exagerar, acentuar ou pequenos desenhos carregados. O termo teria sido cunhado pelos irmãos Carracci, que trabalhavam na Academia de Bolonha. É nos desenhos preservados de Annibale Carracci (1560-1609) – o filho mais notório da família de artistas – que se encontra o nascimento da arte do desenho de humor como um novo segmento no universo das belas artes a ser respeitado.

O humor gráfico de sátira cotidiana e política como conhecemos hoje, no entanto, está diretamente ligado à imprensa europeia do início do século XIX, quando se estabelece de forma definitiva. O Brasil sempre possuiu papel de destaque na área e não é novidade o respeito internacional de que gozam nossos artistas contemporâneos. Nossa tradição na arte da caricatura consolida-se praticamente junto com o velho mundo, entre as décadas de 1820 e 1830. É justamente a este momento da caricatura brasileira e aos pioneiros que fizeram parte dele que este primeiro volume se dedica.

No Brasil, a arte da caricatura possui na charge A Companhia e o Cujo (1937), de autoria do gaúcho Manuel de Araújo Porto-Alegre, certidão de nascimento oficial. A informação é validada por pesquisadores e especialistas em todos os livros até agora publicados sobre o assunto. Aqui, no entanto, um dado até agora inédito é adicionado à questão. O autor identifica no traço de artistas antecessores a Porto-Alegre, todos anônimos e que publicavam em pequenos periódicos, um período intermediário – embrionário, se o leitor preferir – e antecipa em quinze anos os primeiros registros do humor gráfico por aqui.

Gênero anárquico e inconformista por natureza, não é de se estranhar que seus primeiros registros em nosso território remetam a efervescência do debate em torno da independência do Brasil e das movimentações e insurgências que refletiam os desejos patrióticos de um povo por uma nação livre do jugo português. É justamente no ano da proclamação da independência, no desenho que estampa da edição inaugural do jornal pernambucano O Maribondo, que aparece a primeira charge feita no Brasil de que se tem notícia. De autoria anônima, a ilustração mostra um homem corcunda que tenta desesperadamente fugir de um enxame de marimbondos. Embora o desenho não represente uma personalidade pública conhecida, em seu teor cômico para comunicar uma questão política ou fato cotidiano já traz incorporada a verve de nossas charges modernas. Jornal de posição assumidamente pró-independência, o alvo aqui eram os portugueses e, principalmente os brasileiros contrários ao movimento. A corcunda fazia referência àqueles que curvavam frente à coroa e os insetos representavam os brasileiros revoltosos. A imagem do corcunda era comum na época, às vezes representado com cabeça de burro, e também aparece em outros jornais do mesmo período, como O Carcundão.

Magno, no entanto, observa que o novo dado só indica que a caricatura já existia em nosso território bem antes do que se pensava, mantendo Manuel de Araújo Porto-Alegre como patrono oficial da caricatura brasileira. “Estes registros foram feitos por artistas desconhecidos que, provavelmente, não tinham aquilo como algo sério. Tanto que não assinavam. Foi Porto-Alegre quem apresentou a caricatura no Brasil como novo oficio das artes. É nosso primeiro caricaturista declarado e também o primeiro a lançar um periódico exclusivo sobre o tema, A lanterna Mágica”, afirma.

Trazer à tona precursores do humor gráfico nacional, aliás, parece ter sido uma das preocupações do autor. Nas placas satíricas da vida cotidiana pintadas por João Pedro, o Mulato, identifica um antecessor da caricatura. A obra também resgata nomes importantes não mencionados em outros estudos como Leopoldo Heck, Carneiro Vilella, Luis Távora e Maurício Jobim. Dentre eles, merece atenção o trabalho de A. P. Caldas. Autor das caricaturas publicadas no jornal O Torniquete, que teve tiragem de novo números no ano de 1878, Caldas desenvolveu um estilo pautado pela originalidade, como “A Página enigmática”, misturando natureza e retrato. Artista à frente de seu tempo, em suas caricaturas, seu delírio criativo beira o Surrealismo.

O período abordado no livro deixa clara a colaboração dos artistas europeus radicados no país. É o caso do caricaturista português Bardalo Pinheiro e, principalmente, do ítalo-brasileiro Angelo Agostini. Este último teve papel fundamental na luta pela proclamação da república, abolição da escravatura e todas as grandes campanhas políticas da época. Fundador da Revista Ilustrada – “a bíblia da abolição do povo que não sabe ler”, disse na época Joaquim Nabuco –, é também autor de As Aventuras de Nhô Quim ou Impressões de uma Viagem à Corte, série mundialmente pioneira em histórias em quadrinhos. Publicada em capítulos em 1869, foi a primeira novela gráfica brasileira, projeto a que dá prosseguimento em As Aventuras de Zé Caipora, obra fortemente marcada pela brasilidade do autor. “De fato, a caricatura brasileira sofre muita influência europeia, principalmente francesa. Mas há de destacar o nativismo latente. De forma geral, o conteúdo e enredos das charges e caricaturas produzidas aqui, sempre foram nacionais”.

 

A série completa deverá ter sete volumes, o próximo, batizado Guerras, Diplomacia e questões nacionais no Século XIX, deve ser lançado nos próximos meses. Será voltado para a Campanha Abolicionista, a Questão Religiosa, a República, a Guerra do Paraguai, o carnaval e o jogo do bicho. Arte que também é entretenimento, informação e reflexão, a caricatura está tão incorporada ao nosso cotidiano que nem nos damos conta de sua importância. Expressão artística que nunca perde a relevância. Que venham os novos volumes!

Serviço: História da Caricatura no Brasil – Os precursores e a Consolidação da Caricatura no Brasil – autor: Luciano Magno (Lucio Muruci) – Gala Edições de Arte – 528 páginas.

Box: História da Revista no Brasil do Século XIX

A memória gráfica brasileira do século XIX é alvo de outro lançamento que casa muito bem com História da Caricatura no Brasil. História da Revista no Brasil, de Carlos Costa, traça um detahado estudo sobre a formação da imprensa brasileira, fazendo também um histórico de como se deu a formação de um publico leitor em um pais com altas taxas de analfabetismo e reduzido mercado interno.

Serviço: História da Revista no Brasil do Século XIX – autor: Carlos Costa – Alameda Editorial – 455 páginas.

Turma da Mônica Jovem

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Turma da Mônica Jovem

 

Mais de cinquenta anos desde a publicação da primeira tirinha, a Turma da Mônica de Maurício de Souza compreende alguns dos personagens infantis criados no Brasil mais reconhecidos em todo o mundo. E não é pra menos. Desde sua criação, Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali, entre outros, fizeram para te infância de milhares de pessoas no Brasil e no mundo.

Confirmação do sucesso e de sua manutenção no imaginário popular, desde 2008 a Turma da Mônica também figura num outro filão: o de histórias destinadas ao público adolescente. A Série Turma da Mônica Jovem hoje talvez tenha tanto ou mais sucesso do que a versão dos personagens que construiu sua fama e, prova disso, é que, desde que a primeira edição foi publicada, seus exemplares mais antigos se tornaram item de colecionador e são disputados e procurados por fãs em livrarias de usados do país inteiro.

Muitos destes títulos, alguns raros, pode ser encontrados nos sebos do Centro de São Paulo. Para os fãs e colecionadores vale uma passada no Sebo Esquina Cultural, repleto de itens da turminha. Vale à pena uma passada.

 

Serviço:

Sebo Esquina Cultural

Rua Quintino Bocaiuva, 309 – Sé – São Paulo

Telefone: (11) 3101-1811 e-mail: [email protected]

O Quinto Beatle – Quadrinhos

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O Quinto Fabuloso de Liverpool

 

Sucesso de crítica e vendas, a premiada biografia do empresário dos Fab Four em quadrinhos deve virar filme e chega ao Brasil pela editora Aleph.

Por César Alves

 

Contrariando um velho clichê muito explorado em artigos, livros e documentários sobre a história dos Beatles – a de que o produtor George Martin seria a cabeça de número cinco na máquina criativa e bem sucedida dos quatro fabulosos de Liverpool –, em 1999, o ex-Beatle, Paul McCartney teria declarado: “se houve um quinto beatle, este foi Brian Epstein. Brian era praticamente parte do grupo”. O depoimento foi a inspiração para o título de O Quinto Beatle, Graphic Novel, recentemente, publicada no Brasil pela editora Aleph, que conta a história do empresário, divulgador e principal responsável pela beatlemania em quadrinhos.

Escrita por Vivek J. Tiwary e com desenhos de Andrew C. Robinson, a obra narra a história de Epstein, a partir do momento que ele descobre seus futuros protegidos e decide empresaria-los até sua morte, em 1967, por uma overdose acidental.

Dono de uma loja de discos e também empresário de outras bandas de Liverpool, como Gerry and The Peacemakers e Billy J. Kramer, Brian Epstein foi o primeiro a perceber o potencial do grupo, ao ponto de insistir em conseguir um contrato para eles quando ninguém apostava que eles poderiam ser alguma coisa, dentro do Show Business. Visionário, desde os primeiros momentos da carreira do quarteto, declarava “um dia, eles serão maiores do que Elvis Presley”, provocando risadas em gente do meio musical.

Epstein, que era judeu, quando ser judeu era no máximo algo aceitável, e homossexual, quando o homossexualismo era tratado como crime ou doença, foi responsável pela construção visual dos Beatles, convencendo-os a trocar seus casacos de couro rockers pelos famosos terninhos de gola que os fizeram mais apresentáveis para o público britânico

São os desafios, tanto na vida pessoal, quanto profissional, abraçados pelo empresário que dão o tom da narrativa, que representa em alguns momentos, Epstein como um toureiro. Tais experimentos visuais foram a opção dos autores para representar, de forma simbólica, os embates internos e externos sofridos por ele, que tomava remédios para “curar” seu homossexualismo.

Em vários momentos, os autores recorrem a elementos fantasiosos para caracterizar os efeitos das drogas, colocando o leitor na perspectiva de Epstein. Como, por exemplo, a negociação entre ele e o apresentador Ed Sullivan para a apresentação dos Beatles no programa de maior audiência nos Estados Unidos da época e que deu ignição à beatlemania. Durante a conversa com Sullivan, o apresentador fala através de um boneco de ventríloquo.

O texto foi construído através dos depoimentos de amigos e colaboradores do empresário, como Nat Weiss, advogado dos Fab Four, e Joanne Pettersen, assistente pessoal de Brian Epstein.

Da relação afetuosa entre Epstein e Pettersen – aqui como Moxie –, passando pela explosão mundial do grupo; os escândalos – como a declaração de Lennon de que “os Beatles agora são maiores que Jesus Cristo” e sua repercussão entre conservadores e religiosos xiitas –, e as férias na Espanha que o empresário teria passado com John e que ainda hoje rende debates sobre a sexualidade de Lennon, trata-se de um belíssimo trabalho.

A Graphic Novel esteve por cinco semanas entre a lista dos mais vendidos do The New York Times, foi indicada ao Prêmio Eisner, o mais importante dos quadrinhos, e vai ser adaptado para o cinema no ano que vem, com direito ao uso de canções, autorizado pelos Beatles sobreviventes.

 

 

Serviço:

Título: O Quinto Beatle.

Autor: Vivek J. Tiwary.

Ilustrador: Andrew C. Robinson.

168 páginas

Editora: Aleph.

 

Joseph Conrad em Quadrinhos

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As Profundezas do Lobo do Homem no Congo Belga e Joseph Conrad em Texto e Imagem

 

Fruto da experiência pessoal de Joseph Conrad, durante sua estadia no Congo, em plena colonização genocida belga e um dos mais intensos cânones da literatura universal, O Coração das Trevas, ganha adaptação para quadrinhos.

Por César Alves

 

Certa manhã, no limiar do século XX, missionários europeus, dedicados a espalhar a boa nova entre os selvagens da África e salvar da danação suas pobres almas condenadas, receberam um cesto pesado. A princípio, acreditaram tratar-se de um presente, uma demonstração de gratidão dos nativos aos arautos da santidade entre os homens.

O Horror! Não eram frutas nativas.

O Horror! Estava cheia até a borda.

O Horror! Dezenas de mãozinhas negras decepadas.

O Horror! Membros, separados dos corpos de crianças nativas, para castigar seus pais rebeldes.

O Horror! O conteúdo do cesto era o resultado de mais de duas décadas da colonização belga, perpetradas pelos homens de boa vontade.

O Horror! Um dos maiores e mais terríveis massacres, hoje esquecido pelos livros de história.

O Horror! Cerca de 13 milhões de mortos!

O Horror! O silêncio sepulcral de Deus quase tão sombrio quanto o silêncio dos homens de bem, frente aos massacres em nome civilização e do progresso.

Apelidado de “O Açougueiro do Congo”, foi como filantropo, o bom monarca que, em socorro ao sofrimento do povo africano, empreende uma missão civilizadora e humanitária para curar os doentes, educar os ignorantes e alimentar os famintos do Congo, Leopoldo II assumiu um dos poucos territórios ainda inexplorados, durante o neo-colonialismo europeu na África.

 

 

Terreno difícil, selva invencível, o Congo era o inferno, mesmo para exploradores experimentados. No final do século XIX, ainda evitado pelas nações ricas que investiam e lucravam com a exploração das riquezas dos territórios vizinhos.

Ambicioso, Leopoldo II chegou ao poder como o soberano que iria mudar o papel de seu país na história. A Bélgica havia ficado de fora da colonização do Novo Mundo, era vista como uma nação pacífica e próspera, mas sem grande atuação no jogo político internacional. Vencer o inferno do Congo poderia ser a cartada definitiva para mudar o jogo. Mas a empreitada era por demais arriscada. As chances de fracasso eram imensas e, ainda que obtivesse sucesso, os lucros certos com as riquezas naturais levariam tempo para cobrir as despesas da aventura.

Para evitar jogar a conta no tesouro belga, o rei arquitetou um plano para financiar equipamentos, armas e mão de obra, sem tirar do próprio bolso. Fundou, em seu nome e em nome de seus parentes, diversas associações filantrópicas de fachada e, através delas, arrecadou os fundos necessários, sob a alegação de tratar-se de uma expedição humanitária. Algo bem parecido com o golpe de políticos, ativistas inescrupulosos e ONGs falsas de hoje em dia. Na verdade, sua majestade tinha verdadeiro interesse era na riqueza de marfim e extração de borracha – o potencial das riquezas minerais da região ainda não tinha sido percebido, mas o leitor não está errado se pensou nos “Diamantes de Sangue”, que não é nada mais do que um dos capítulos mais recentes dessa mesma tragédia.

Os trinta anos de dominação belga no Congo, resultou num número aproximado de 13 milhões de mortos. Portanto, quando você pensar nos grandes genocídios da história, lembre-se também do Holocausto Negro no Congo; quando falarem em campos de trabalhos forçados e de extermínio, pense no estupro de mulheres negras liberados para soldados e emissários do rei e no único caso conhecido na história de um povo e um país inteiro como propriedade e mão de obra escrava de um individuo, o Rei Leopoldo.

Quando ler sobre a crueldade perpetrada por grupos paramilitares, milicianos e guerrilheiros nas florestas africanas de hoje, pense no “Manual de Dominação e Condicionamento”, elaborado pelos alto-funcionários da coroa belga em fins do século dezenove, que incluía tortura, desmembramento, decapitação e cabeças enfiadas em estaca, como forma de imposição da ordem, ainda hoje usado para educar os integrantes dos grupos citados anteriormente.

 

O horror, segundo Joseph Conrad, em quadrinhos

Ainda hoje praticamente ignorado pelos livros de história, a tragédia colonial do Congo não passou despercebida pela literatura e acabou gerando uma das obras mais importantes de literatura universal, através da pena mestra de Joseph Conrad, autor de O Coração das Trevas e testemunha ocular do massacre – Conrad seguiu a carreira de marinheiro por 16 anos, experiência que foi base para sua obra. Em um de seus últimos empregos marítimos, o autor trabalhou para uma empresa de exploração belga, justamente conduzindo um barco a vapor através do Rio Congo. O período de dominação de Leopoldo II.

A obra, que já ganhou duas adaptações para cinema e pode ser encontrada em diversas traduções em nossas livrarias, acaba de chegar às nossas prateleiras em adaptação para os quadrinhos.

Roteirizado pelo premiado dramaturgo norte-americano, David Zane Mairowitz, com desenhos de Catherine Anyango, do Royal College of Arts of London, e tradução para o português de Ludimila Hashimoto, no ótimo lançamento da heróica editora Veneta.

Inspiração para o roteiro de Apocalypse Now de Francis Ford Coppola, O Coração das Trevas narra a saga do capitão Charles Marlow e sua busca pelo misterioso senhor Kurtz. Lobo do mar e aventureiro, Marlow se vê entediado após longo período sem trabalho. Para quem tem em um navio seu único lar e na vastidão do mar sua única pátria, nada pior que terra firme. Contratado por uma companhia inglesa de exploração de marfim, Marlow assume o comando de um barco a vapor. É enviado a uma colônia africana para, pelo rio, transportar de um posto a outro o produto extraído da selva. Antes, no entanto, é incumbido de resgatar o senhor Kurtz, funcionário que dirige o posto mais produtivo, localizado na parte mais alta e inóspita da rota. A busca por Kurtz mergulha Marlow em uma jornada sombria em direção às profundezas da selva e da alma humana.

 

 

Serviço:

 

Título: O Coração das Trevas

Autores: Joseph Conrad, David Mairovitz e Catherine Anyango

Editora Veneta

128 páginas

Esquina Cultural

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Esquina Cultural

 

Qualquer um que caminhava pelas ruas do Centro de São Paulo em meados dos anos 80 e 90 e tivesse o hábito de garimpar livros, deve se lembrar da imensa oferta de sebos que ofereciam títulos bons e baratos, desde que o cliente estivesse disposto a se dedicar ao garimpo.

Com o passar dos anos, o Centro se tornou a verdadeira Meca para os amantes de livros e cultores do alfarrábio, o que acabou por tornar o mercado de sebos e livros usados mais um grande negócio do que uma paixão comercial por venda e troca livresca, chegando ao ponto de alguns sebos terem preços tão altos quanto os das livrarias oficiais.

Para os saudosos daqueles tempos, eis que surge uma luz no final do túnel. Localizado nas proximidades da Praça da Sé, mais precisamente na rua Quintino Bocaiúva, o Sebo Esquina Cultural surge com uma proposta Old School de comercializar e privilegiar o garimpo livresco. Suas prateleiras estão carregadas com um vasto acervo de livros, LPs, CDs e revistas à preços acessíveis – à partir de R$ 3,00 e promoções como três livros a 5 ou 10 reais.

E não se tratam de títulos pouco procurados, mas obras clássicas de autores como Oscar Wilde, Guimarães Rosa, Albert Camus, Jorge Amado, J. J. Veiga, entre outros, e títulos nas áreas de história, filosófica, arte, teatro, musica e demais seguimentos à partir de 5 reais; além de títulos da Coleção Primeiros Passos a 12 reais, coleção Os Pensadores por 15 reais e Tudo é História por 10 reais cada.

Vale à pena uma passada por lá…

 

Serviço:

Sebo Esquina Cultural

Rua Quintino Bocaiuva, 309 – Sé – São Paulo

Telefone: (11) 3101-18811 e-mail: [email protected]

 

 

 

Quadrinhos – O Perfura Neve

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https://megaleitores.com.br/assuntos/livros/quadrinhos

A Podridão Viaja de Trem

 

A ficção-científica pós-apocalíptica de O Perfura Neve, graphic novel concebida pelos franceses Jacques Lob, Jean-Jacques Rochette e Benjamin Le Grand, chega às nossas livrarias.

Por César Alves

 

 

Em um vagão lotado de miseráveis, alguns de seus passageiros – talvez tentando se esquecer da fome e do frio –, decidem comemorar o aniversário do mais velho entre eles. A situação e condição em que se encontram não oferecem possibilidade para a realização de uma festa, mas, dentro de suas possibilidades, os passageiros prometem ao ancião o que ele mais gostaria de ter como presente, naquele momento. Ele responde:

“Solidão. Ficar sozinho, nem que seja por uma hora ou duas”.

Todos consentem e se apertam com os demais passageiros do vagão ao lado, para dar ao pobre senhor, uma hora de privacidade, realizando seu desejo. Enquanto aguardam, divertem-se, conversando sobre o que estaria ele fazendo, com a rara privacidade concedida.

Ao final daquela hora, todos retornam ao vagão original, curiosos sobre como ele teria aproveitado seu tempo e se estaria feliz com o presente. Para o espanto de todos, encontram o aniversariante dependurado com uma corda ao redor do pescoço. Aproveitara seus minutos de solidão para dar fim a sua vida e escapar de seu martírio.

Concebida originalmente em 1980 pelos franceses Jacques Lob e Jean-Jacques Rochette, a graphic novel, O Perfuraneve (Le Transperceneige), é considerada uma obra prima da ficção-científica em quadrinhos e a tradução de Daniel Luhmann, que acaba de ser lançada no Brasil pela Editora Aleph, comprova não se tratar de exagero.

Ambientada num mundo pós-apocalíptico, lançado numa nova Era do Gelo, depois de uma hecatombe nuclear, a trama gira em torno dos conflitos dos últimos sobreviventes da raça humana, condenados a vagar pelo planeta num mega trem de 1.001 vagões, considerado a última esperança da espécie, o Perfuraneve.

Ao contrário do que se deveria esperar – e a historia do homem conhecida até aqui só comprova não ser coisa da ficção –, face à ameaça de extinção, os remanescentes do que foi um dia a civilização não se unem em nome de um bem comum e vencem suas diferenças para salvar a espécie. O que se dá, é exatamente o oposto.

Uma vez embarcados, os passageiros imediatamente passam a reproduzir o comportamento que rege a sociedade, no que ela tem de pior. A beleza e inteligência do texto vêm justamente na maneira como os autores souberam reproduzir isso, através da maneira como estão divididos os vagões. Sendo que os últimos deles acomodam os pobres e miseráveis – os fundistas –, proibidos de interagir com os demais passageiros; enquanto que estes são destinados, de forma crescente, aos mais ricos, revelando melhor conforto e condições de vida, de acordo com as posses e classe econômica de seus passageiros. Sendo assim, O Perfuraneve mergulha nas profundezas de nossa espécie, revelando um microcosmo da civilização em suas mais vergonhosas e desprezíveis características, como a intolerância, a ganância e a violência, expostas nas atitudes políticas, daqueles que administram o trem, com como nos adeptos de uma nova religião, surgida das cinzas das religiões monoteístas conhecidas, que, uma vez confinadas, readaptam sua fé, substituindo a figura de Deus pela Máquina Sagrada que corre nos trilhos.

A série teve continuidade em dois outros volumes, The Explorers (1999) e The Crossing (2000), escritas por Benjamin Legrand. Além do belo tratamento gráfico, a edição brasileira tem a vantagem de reunir toda a saga em um único volume.

Definitivamente, imperdível, a obra original foi adaptada para o cinema em 2013, lançado no Brasil como O Expresso do Amanhã, do diretor coreano Bong Joon-ho, estrelado por Chris Evans (o Capitão América dos filmes da Marvel).

 

 

Serviço:

Título: O Perfuraneve

Editora: Aleph

280 páginas